quinta-feira, 20 de abril de 2023

A Personalidade em sua síntese: Saúde Ou Norma?


Maria Helena 

                               “Só a experiência própria é capaz de tornar sábio o ser humano”. (Freud)

 Com o curso de Psicanálise venho aprofundando algumas constatações que, até então, eram algumas percepções as quais considero superficiais.

O fio condutor, didaticamente elaborado do fazer psicanalítico, transcende em ver o ser que sofre, para além de uma justaposição de mente, corpo e cultura.

Partindo das pesquisas de Freud ou Lacan, ainda, dos demais autores de que tratam do referido tema, verificado a voz daquele que sofre, ser conduzido pelos sintomas, até chegar em uma verdade, não é possível existir um ser humano sem nenhuma frustração.

Mesmo existindo diferentes personalidades, existem diferentes desejos em cada uma. E como a vida é movimento, há transformações, portanto, impossível não haver oscilação na tentativa de se integrar, adaptar ao novo. E quanto mais novo, mais a psique deve gerar energia a fim de buscar um equilíbrio, portanto mais sinapses, mais adrenalina e outros hormônios, mais emoções e sentimentos em um só foco. Tudo isso forjando uma personalidade.

As denominações de personalidades têm sua história com o próprio desenvolvimentos da medicina, psicologia e psicanálise, em um contexto cultural. Para falar de um transtorno, deve-se conhecer o padrão, referência usada como saudável, aqui no caso, a personalidade.

Para Dalgalarrondo (2008) o tema personalidade é complexo, portanto, também fonte de muitos erros.

 O presente artigo é parte complementar do curso Personalidade e Psicopatologias (IBPC) e objetiva analisar a procura pela “normalização” de um paciente em busca da psicanálise.

É uma reflexão pautada na visão quantiqualitativa, trazendo pesquisadores que fizeram deste tema sua busca constante.

1.1    Tipos e Transtornos de personalidades:

 Dalgalarrondo (2008) indica que a primeira tipologia foi da medicina hipocrática e é essencialmente ambientalista, ou seja, focada nos elementos: água, ventos, solo, umidade do ar, entre outros, interagindo com o corpo humano. Sendo os humores com os respectivos órgãos: o sangue é o coração; a bílis é o fígado; o fleuma é o cérebro e a atrabilis é o baço.

Jung, por sua vez, faz uma organização dos aspectos de personalidade: a extroversão, a libido flui em direção aos objetos externos; e a introversão a libido recua ao mundo interior.

Para Freud a constituição da personalidade passa pelo desenvolvimento das fases da libido, como se estrutura o desejo inconsciente. Assim temos: neurose, psicose e perversão.

Para a psicanálise as fixações infantis da libido e a tendência à regressão determinam os diferentes tipos de neurose e o perfil de personalidade do adulto. (DALGALARRONDO, 2008)

As neurociências demonstram como as emoções se desenvolveram para aumentar a sobrevivência e garantir a existência da espécie. (Zimermann, 2008).

O DSM-5 (2013) divide os 10 tipos de transtornos de personalidade em 3 grupos com base em características semelhantes. O grupo A é caracterizado por parecer estranho ou excêntrico. São os seguintes transtornos: Paranoide: desconfiança e suspeita; Esquizoide: desinteresse em outras pessoas; Esquizotípico: ideias e comportamentos excêntricos. Grupo B: Antissocial: irresponsabilidade social, desrespeito por outros, falsidade e manipulação dos outros para ganho pessoal; Borderline: vazio interior, relacionamentos instáveis e desregulação emocional; Histriônico: busca de atenção e emocionalidade excessiva; Narcisístico: autograndiosidade, necessidade de admiração e falta de empatia. Grupo C:  Esquivo: evitar contato interpessoal por causa de sensibilidade à rejeição; Dependente: submissão e necessidade de ser cuidado; Obsessivo-compulsivo: perfeccionismo, rigidez, e obstinação.

       1.2    O ser humano de cada um

“Conheceis a verdade e ela vos libertará” (João 8, 32). “Conhece-te a ti mesmo”. (Sócrates 470 a.C.). Assim, quer por uma visão espiritualizada ou filosófica, é bastante não diria antiga, diria fortalecida a importância em buscar em si, as próprias estruturas, os próprios princípios, aquilo que é a alma do sujeito, o seu próprio ser.

Muitos afetos inconscientes vazam em forma de sofrimentos físicos. Sem um diagnóstico que seja comprovado por exames de imagem ou laboratoriais.

 O somatizador tem dificuldades de fantasiar, de sorte que o ego não consegue processar, elaborar e representar as pulsões, do que resulta que ele superlibidinizar o corpo de forma concreta. (Zimerman, 2008).

Um ser é mais que a junção do físico, emocional, intelectual e espiritual. Síntese é um substantivo feminino, parte do método dialético, tese, antítese e síntese. Processo ou operação que consiste em reunir elementos diferentes, concretos ou abstratos, e fundi-los em um todo coerente.

Para McWilliams (2014) “é a percepção de padrões oscilantes que enriquece as noções analíticas de caráter e as torna mais genuinamente clínicas do que uma lista de atributos estáticos. ” (p.60)

Diante ao exposto, a psicanálise, enquanto método e didática faz suas classificações, no entanto é para analisar um Ser.

O analista deve ajudá-los a que os expressem para os outros, logo, para o analista na situação analítica, porquanto isto desempenha um importante papel na – fundamental – função de regulação da atividade emociona. (Zimerman, 2008)

Aquele que busca a psicanálise necessitando minimizar o seu sofrimento, em princípio, enfrentará as suas resistências, no sentido de reconhecê-las. Perceberá o que é parte de sua personalidade, terá uma melhor compreensão de seus desejos ocultos, os quais não podem ser concretizados, muitas vezes, devido ao seu severo superego. Portanto, o grande conflito id-superego.

Mais que um profundo reconhecimento daquilo que é externo, o seu entorno social, cultura, a aceitação dos demais sobre a sua conduta, cabe àquele que sofre não se perceber normal, e sim saudável. Sentir-se em paz, sem angustias, medos, sintomas psicossomáticos de toda ordem.

Conclusão:

São diferentes seres, com diferentes genéticas, temperamentos, vida afetiva se foram amados, negligenciados, alimentos para o físico e para alma. Tudo isso implicará em sua personalidade.

 Aquilo que poderia ser considerado um transtorno, pode fazer parte do seu Eu, considerado pelo analisando como saudável. Em contrapartida, aquilo que ele traz como a queixa inicial pode esconder algo que está muito longe para que acesse ao afeto, sozinho.

Referências bibliográficas:

Dalgalarrondo, Paulo. Psicopatologia e semiologia dos transtornos mentais. Porto Alegre: Artmed, 2008.

DSM-5. Manual diagnóstico e estatístico de transtornos mentais. Porto Alegre: Artmed, 2014.

McWilliams, Nancy. Diagnóstico Psicanalítico. Porto Alegre: Artmed, 2014.

Zimermann, David E. Manual de Técnica Psicanalítica. Artmed, 2008.


Autoria: Maria Helena
Blog: Continuando Formação - https://continuandoformacao.blogspot.com/

Texto original. Ao reproduzir ou citar, mantenha a referência da autora e da fonte. 

 

 

 

 

 

 

Sonhos: para transpor a porta é preciso conhecer a cena

                 Maria Helena

            No módulo 08 do curso de Psicanálise Clínica (IBPC), cujo tema é Sonhos, Simbologias e Representações, percebe-se a importância de interpretar os sonhos para auxiliar o analisando a organizar e compreender os seus sentimentos. Contudo, há uma importância fundamental neste item, o de reconhecer o contexto do sujeito para não se utilizar de símbolos, ou melhor de objetos que, para determinado grupo, não simbolize nada.

Representar significa ser a imagem, o símbolo, a reprodução de; exibir em teatro; levar à cena, encenar; interpretar (um personagem) em teatro, cinema, televisão etc.; desempenhar (papel) como ator; atuar.(Bing, 2021)

Conforme o referencial teórico trazido pelo método de representação dos sonhos, o ato de interpretar, representar não é difícil, porém é complexo, pois é necessário conhecer um conjunto de elementos.

Simbologia significa a arte de criar símbolos, o estudo ou interpretação dos símbolos, sistema de símbolos.(Bing, 2021) Aqui nos vem uma observação, somente é possível para aqueles que compreendem tal sinal, terá significado se conhecerem o significante.

A experiência subjetiva que aparece na consciência denominado sonho é o resultado final de uma atividade mental inconsciente. O sonho manifesto é a experiência consciente, durante o sono, que a pessoa pode ou não recordar depois de despertar. Os pensamentos e desejos inconscientes que ameaçam acordar a pessoa são denominados conteúdo latente do sonho. (IBPC, 2020).

Se comprovadamente os sonhos conseguem oferecer uma ferramenta poderosa para adentrar ao inconsciente de um sujeito, é imprescindível ao analista conhecer muito de semiologia, para entender signos, ícones, símbolos, significante, significado, diversidade cultural. Caso contrário, utilizará como um manual, um “CID”. Mais desafiador ainda, porque o analisando irá narrar o sonho da forma como lembra, talvez, faça recortes no intuído de não se “machucar”. Portanto o interlocutor deverá ser um exímio observador, estar focado literalmente no que é comunicado, para poder auxiliar o analisando a interpretar, a partir de princípios técnicos, todos os mecanismos que fazem parte desta importante ferramenta.

Sendo o sonho um recurso importante, o analista deve estar atento quando pode ocorrer a narrativa, pois pode acontecer no primeiro dia, na primeira consulta quando o psicanalista estará fazendo a entrevista para o diagnóstico, por exemplo. Assim, o profissional deve possuir bastante, “treino”, experiência, desenvoltura para não perder detalhes da entrevista que possa vir através de um sonho.

Para Dalgalarrondo (2008, p. 57) [...] “na própria formulação sobre o que seriam os fatos reais ou concretos, intervêm a linguagem e uma certa interpretação prévia desses fatos". Significa dizer que a linha filosófica que o analista segue, irá interferir na abstração realizada do sonho do analisando.

Segue o supracitado autor: “fatos brutos, originais intocados pelas representações e teorias que deles são feitas, são, na verdade, mais virtuais que reais.” (p. 57, 2008). Diante disso, a coerência, o produzir resultados eficientes, usar de ética, não é tão simples assim. Pois o analisando tem o direito de todas as incoerências simulando ou dissimulando, porém, o profissional, não.

Outros dois conceitos são fundamentais para seguimos o texto e o contexto: consciência e inconsciência. Porque de acordo com Dalgalarrondo (2008), pode existir o sentido de consciência, enquanto estado de vigília, que seria a neuropsicológica. Em uma definição psicológica, por sua vez, é a dimensão subjetiva da atividade psíquica do sujeito. E a definição ético filosófica refere-se à ciência dos direitos, deveres e responsabilidades com ética. E a inconsciência, é um conceito dinâmico e determinante da vida psíquica é um dos pilares mais importantes da psicanálise e da psiquiatria. (Dalgalarrondo, 2008).

Diante ao exposto, para o psicanalista poder auxiliar, fornecendo pistas, questionamentos ao analisando, diante do sonho do mesmo, para que esse consiga se deparar com uma cena e disso possa tirar proveito, possa auxiliá-lo a organizar seus pensamentos e sentimentos, o profissional deve possuir uma sensibilidade altruísta, eu diria. Pois está lidando com uma vida fraturada, ou fantasiada, real ou não. Entretanto, são sintomas que machucam, “é fato” para quem sofre.

O tema interpretação dos sonhos, contextualizando com todos os conceitos da psicanálise até aqui estudados, utilizados não como uma justaposição de peças, porém, com toda a ética necessária, de fato, para auxiliar um sujeito a se encontrar, a se perceber, ser feliz é um instrumento valioso. Pois o sonho é uma atividade saudável.

 REFERENCIAS BIBLIOGRÁFICAS

 DALGALARRONDO, Paulo. Psicopatologia e semiologia dos transtornos mentais. Porto Alegre: Artmed, 2008.

MÓDULO 8. Curso de formação em psicanálise - psicanaliseclinica.com (2020)

REPRESENTAR. Disponível em : representar - Bing. Acesso: 28 set.21

SIMBOLOGIA. Disponível em simbologias - Bing. Acesso: 28 set.21

 

 

 

A Representação Social em um setting psicanalítico

                                                                 Maria Helena                                                     

            "Somos as palavras que trocamos, os enganos que cometemos e os impulsos a que cedemos”. (Sigmund Freud)

 Toda pesquisa parte de uma curiosidade e esta nasceu de um cenário propício ao encantamento da procura, do incômodo do querer buscar respostas. Estudar o homem, necessita compreendê-lo sob vários aspectos, pois é um ser individual, social, histórico e cultural.

 Este artigo se debruça sobre os aspectos relevantes estabelecidos na comunicação acontecida em um setting de psicanálise, tendo como seu objeto a representação social.

Embora haja muitas produções sobre a comunicação, a relevância deste tema não se esgota, devido a psicanálise atualmente estar presente em todas as classes sociais, econômicas e culturais, ainda ser analisada à luz da representação social em seu espaço íntimo analista-analisando.

   Os seres se comunicam de variadas formas e os humanos, por sua vez, possuem sua maneira específica.

   Não pode haver dicotomia entre um significante e o significado na comunicação, principalmente no aspecto conceitual, porquanto nem todo termo utilizado por um comunicador é compreendido por outrem, da mesma forma. Há um viés inédito e original neste texto, pela ênfase social, em um eixo que, por vezes, é compreendido na individualidade do e no analisando. Objetivo geral: Contextualizar o papel da Representação Social como elemento na comunicação em um setting de psicanálise. Específicos: Analisar o conceito de Representação Social; Compreender o contexto analista-analisando (setting); Especificar os elementos da comunicação em psicanálise.

   Para construir um tema é necessário se pautar em conhecimentos construídos anteriormente decorre e, por vezes, “no entrecruzar-se de muitos assuntos se pesca o peixe que se procurava”.  (MARQUES, 2001, p. 100).

  É uma pesquisa quanti-qualitativa, porque essa parte de levantamentos exploratórios na internet, para a indicação dos objetivos e firma-se na pesquisa bibliográfica.

1. Representação Social

 “Representações adquirem vida própria, circulam, se encontram, se atraem e se repelem e dão oportunidade ao nascimento de novas representações, enquanto velhas representações morrem”. O movimento faz parte do cotidiano, devido o ser humano, refletir pensar e buscar respostas. (MOSCOVICI, 2011, p. 41).

As Representações Sociais são um conjunto de crenças e saberes socialmente construídos e partilhados, saberes esses que nos permitem pensar, falar, tomar decisões, nos apropriarmos do mundo e dar-lhe sentido.

 Para Jovchelovitch (2008) a representação possui em si dimensões que são entendidas na complexidade e complementaridade no viés ontológico, epistemológico, social, cultural, histórico e psicológico. Em razão do ponto de vista do fenômeno, formam um sistema, estão interligados.

  Partindo dessa visão, não há como considerar isoladamente cada item designado, porque a sua razão de ser se encontra quando o colocamos em um continente para poder compreendê-lo. Ao mesmo tempo que a ciência é feita de homens para os homens, não é um constructo de seres refratários ao seu meio.

Continua Jovchelovitch (2008) indicando que a compreensão daquilo o qual as pessoas que comungam da mesma forma de comunicação, acontece por construírem os mesmos significados para os significantes. Porque suas relações concretas em grupo e no individual compartilham da cultura, da história, em suas relações sociais, produzem e reproduzem, o que lhe é simbólico, seja físico ou abstrato.

Para a referida autora o processo da representação social permite que um ser se perceba e se represente, possuindo, assim, a identidade. Promove a percepção objeto-mundo, também, na intersubjetividade possibilita a constituição histórica e cultural

Não há como negar que um conjunto de seres humanos comungam de crenças, valores, linguagens, símbolos para que se identifiquem e haja uma suposta segurança do pertencimento. Uma sociedade sem indivíduos que não reconheçam a sua história e, com ela, não se identifiquem, podem causar vários problemas ao grupo, e tornando esse, vulnerável.

Portanto, parte-se da prerrogativa, que os símbolos devem ser de conhecimento de todos, para que haja colaboração. Fato, assim, se entende também, que a qualquer ciência para poder estudar esses grupos, não pode isolá-los nem do seu contexto, isto é micro e, muito menos, de um nível macro.

Durante uma sessão de psicanálise se entrecruzam materiais, os quais devem ser observados com muita cautela.

2. O Setting: Minha História, Tua História

 Falar em Freud é tratar de psicanálise e lembrando essa, é indicar a associação livre que é a técnica utilizada para o desenvolvimento do objetivo da mesma.

É papel da técnica associação livre favorecer um vínculo entre analista e analisando, com a finalidade de compreender os processos reprimidos pelo subconsciente do paciente. Pois quando esse procura a psicanálise, está em busca de que seu sofrimento seja suprimido. Os recalques podem estar gerando seus sintomas como a angústia ou a ansiedade, mas precisa-se, também, lidar com os mecanismos de defesa.

  Para Oliveira (2020) os mecanismos de defesa surgem enquanto estratégias, para proteção da pessoa, para que a mesma consiga se manter sem sofrimento, sem o contato frequente com aquela demanda que está em seu inconsciente e se chegar ao consciente, lhe causará muito sofrimento.

     Segue a referida autora de que tais mecanismos são mobilizados frente a uma situação indicada como perigo, ou seja, reviver fatos, mesmo em memória que são dolorosos no qual o sujeito não está preparado para suportar. Portanto, permitir ao analisando que o mesmo se autoconheça, se preparando para encontrar os tais traumas é uma função da psicanálise.

Ao iniciar o tratamento pelas sessões de psicanálise, a técnica, a proposta de associação livre é comunicada ao analisando, porém esse não tem a obrigatoriedade em entendê-la e cumpri-la. No entanto, faz parte da ética humana e profissional do psicanalista conhecer e compreender a psicanálise em suas nuances para poder desenvolver um trabalho capaz de minimizar os sofrimentos e/ou "curar" o analisando.

 O tratamento analítico tem como base a comunicação entre analista e paciente. Parte-se do pressuposto que as comunicações do paciente, por meio de sua liberdade de fala, permitem a emergência de seus conteúdos inconscientes, podendo ou não, possuir um significado de acordo com a escuta e a interpretação efetuadas do analista.

      É intrínseco à psicanálise a própria forma de comunicar-se, porquanto analista e analisando, são tocados em suas mais intimas condições, por isso a importância da percepção da transferência.

      Para a psicanálise, em seu método de tratamento, Freud deixa a herança de que no ato de comunicar, o analista deve estar bastante atento à associação livre elaborada pelo analisando, durante uma sessão de análise. Portanto, cabe ao analista instruir o seu analisando para dizer tudo o que vem à mente, mesmo que lhe pareça uma bobagem. (MELLO, 2017)

 Para Freud as comunicações verbais do paciente são fundamentais, uma vez que era a partir dessas comunicações, e da escuta do analista, que o significado latente dos sintomas poderia ser revelado. Os sintomas, ao mesmo tempo em que mantem secretos e inacessíveis certos pensamentos e sentimentos, comunicam de modo distorcido, cabendo ao analista colocar-se disponível para acolher tais comunicações. (MELLO, 2017)

      Claro está que o analista não deve de antemão julgar, pressupor, diagnosticar, sem obter todos os elementos necessários, ainda a própria, análise por si, possui um elemento fundamental e filosófico, pautado na dialética, ou seja, movimento. Embora o material recalcado seja e esteja ali, a maneira como se acessa a ele, não é possível um planejamento rígido, à priori, por parte do analista. Portanto, a atenção flutuante serve para o analista ter, em sua consciência, essa percepção o tempo todo.

Toda a prática na vida de um sujeito decorre de uma teoria, sendo um processo intrínseco teoria e prática são movimentos dialéticos. Assim, é uma atividade, condição humana, portanto social.

O analista faz devolutivas ao analisando em forma de questionamentos, partindo das comunicações verbais, corporais, silêncios. Para tanto, a atenção a todos estes sinais, pistas valem para serem investigados, até onde está uma resistência, um sintoma, uma possível causa daquele sofrimento humano.

“A psicoterapia é um valioso recurso para lidar com as dificuldades da existência em todas as formas que o sofrimento humano pode assumir [...].” (MÓDULO 09, 2020, p. 05).

E isso não pode ser apenas uma frase bonita, que chamou a minha atenção. É profundamente uma percepção do que vem a ser os momentos que a psicoterapia pode favorecer de mais humano para uma pessoa que está com um sofrimento causado por suas emoções.

“A boa terapia se desenrola num enquadre clínico com um vínculo que favorece este processo. Aí está um dos segredos desta arte: criar um ambiente que permita a revelação dos mundos internos e favoreça o desenvolvimento do processo singular de cada um”. (MÓDULO 09, 2020, p. 10).

Percebe-se que não é qualquer profissional ou ambiente que conseguirá fazer com que um paciente, cliente, analisando, enfim uma pessoa se sinta tão à vontade, ao ponto de expressar sua mais profunda dor.

De acordo com o Módulo 09 (2020), a base de uma boa terapia está na relação terapêutica, quando se desenrola em uma harmonização cujo vínculo favorece o processo. O ambiente é um elemento fundamental, portanto, deve possibilitar que o mundo interno do analisando consiga emergir, ainda beneficiando o desenvolvimento da dinâmica da singularidade individual. Nesse clima, é possível ao ser mais oculto e amedrontado se mostrar, ser ouvido, transformar-se.

 Uma ferramenta fundamental é a atenção flutuante durante um encontro no setting, e isto exige do analista sustentar a posição de não saber de antemão o sentido da fala do paciente. É um esforço de não levar compreensões pré-construídas para as sessões e tomá-las como um filtro através do qual irá escutar a fala do paciente. O resultado disso é que o analista se torna mais disponível para o reconhecimento das manifestações do inconsciente. E a comunicação é uma ferramenta fundamental.

3. Comunicação, objeto, representação

Quando determinado grupo se engaja em torno de um fenômeno, de algo que lhe é concreto, a representação social que constroem de cada elemento, à priori, possui um significado para os significantes. Assim, é necessário a todos a compreensão da leitura desses dados que conformam a sua rede de elementos.

    O diálogo não acontece somente com palavras, pois se presume saber que o silêncio constitui a comunicação, porque é uma maneira de expressão. Silêncio é linguagem e se intercala à conversação. No diálogo estão imbricados períodos de repouso e, também, momento de reflexão.

Em um espaço de conversação sobre o sofrimento de uma pessoa, muitos elementos emergem, daquilo que Freud denominou de psique.

   Para Oliveira (2020) entre as exigências do id e as censuras do superego, o ego sente-se pressionado, defendendo-se com o medo, em razão de não poder se desestabilizar. Assim, os mecanismos de defesa surgem, porém devem ser percebidos pelo psicanalista porque esses podem modificar a forma como o sujeito se percebe. Outra observação é que a demanda apresentada pelo analisando é uma representação deformada da realidade.

   Diante disso, a atenção ao objeto da análise, a percepção intima do sujeito sobre os seus sentimentos, como esse traduz os mesmos em forma da linguagem.

  A linguagem reduz, limita, porque não abrange certos sentidos, por vezes entendendo o silêncio como uma não linguagem. Assim, o silêncio não é um calar-se, e é sim um jeito de fala. O silêncio representa um limite das palavras, um espaço vago e, neste lugar, a imaginação dos sujeitos que estão se comunicando, podem criar possibilidades múltiplas.

 Nas diferentes formas de linguagem, pode estar simplesmente repetindo, imitando, pois a proliferação dos meios de comunicação de massa e o impacto de práticas globalizadas, em arenas locais, intensifica os embates entre formas diferentes de se conhecer, diferenciar o que é real e o que é fantasia. Em nível individual e no coletivo levanta questões sobre como comunidades locais se apropriam dos acontecimentos, fatos, imbricados por emoções individuais.

Ao exposto precisa-se verificar em que base está a ciência que faz a análise do objeto. Quando se afirma que pode ser a partir de uma visão racionalizada, não significa dizer que a ciência ganha notórios de certeza, mesmo quando de manifestação publicizada. Significa que a informação passou por um determinado crivo, porém não necessariamente represente um coletivo.

Jovchelovitch (2008) assevera que para perceber a comunicação deve-se abrigá-la na intersecção das ciências que estudam o homem.  A não ser que essa seja reduzida a um elemento da linguagem humana.

A comunicação humana acontece na ação, na prática social, não é um em si para si. Portanto, desejar analisar a linguagem enquanto produto humano, enquanto objeto, devem estar claros até a reparação em determinados recortes históricos. Portanto, para melhor apreendê-la, faz-se necessário contextualizá-la. (JOVCHELOVITCH, 2008)

Prova disso é o que, atualmente, vivemos diante de informações cujas fontes são ‘ocultas’. Se isso gera insegurança por indivíduos que conseguem ter uma ação reflexivas, outros podem consumi-la, ou seja, sentir-se amparado porque entende estar atualizado.

Nesse quesito importa ao sujeito-psicanalista, analisar o próprio entorno. Para que no setting, possa compreender a partir de quais indicadores o seu analisando traz as mensagens, toda e qualquer forma de comunicação.


Conclusão

Foi oportuno realizar a pesquisa, verificar as fontes comparar autores, datas e chegar a uma conclusão, mesmo que momentânea.

Para se possuir uma visão parcial e limitada de um objeto, basta ver o próprio como parâmetro e para explicar um dado contextualizado se deve abarcar seus múltiplos aspectos. Perceber o maior número de elementos que compõe um objeto, se faz necessário uma visão ampliada.

É determinante a percepção dialética do movimento como processo e produto humano ou do humano. Nesse olhar, a comunicação, enquanto objeto pode ganhar uma representação que não emergiu do coletivo de maneira cultural. Contudo, regida por interesses direcionados de grupos que não se identificam historicamente com seus contemporâneos. Portanto, a reflexão constante sobre o objeto é imprescindível. Algumas conclusões sobre o tema pesquisado são evidenciadas.

Com relação às representações sociais, essas são formadas em um constructo social, cultural de crenças, conhecimentos sendo partilhados por um grupo que com ele se identifica, portando percebendo um mesmo significado para determinado significante. Como é o caso da comunicação, porque emissor e receptor conhecem o mesmo signo para iniciar um diálogo.

  A sessão de análise ultrapassa o par analítico, pois muitos outros elementos por ali transitam, entre eles: duas histórias com os seus referenciais, são sentimentos, emoções, sofrimento. De outra parte, permeado de emoções, existe uma expectativa do conhecimento daquele que conduz a sessão, no caso o analisando, uma vez que o psicanalista estará focado na associação livre que o analisando elabora. (setting).

O psicanalista cumpre o papel de ouvir sem julgamentos, com a atenção aos detalhes, porém sem estereótipos, não pressupor um diagnóstico, e não ser tendencioso norteando a análise de acordo com o próprio ego. Não deve ouvir o analisando pensando em encaixar os sintomas, as emoções em uma patologia. Mas prestando atenção nos detalhes de fala, gestos, sinais, pistas porque podem indicar a resistência, um sintoma, uma ansiedade, talvez a possível causa do sofrimento.

 No ato de dialogar cabe ao analista conhecer o enredo sócio cultural, e isso resulta da entrevista, para poder fazer as intervenções necessárias levando o analisando a refletir sobre o próprio pensar.

O método psicanalítico com a atenção flutuante e a associação livre,   conjugam um aporte metodológico e técnico de base para o trabalho do psicanalista, porque são os causadores iniciais, e necessários, para que uma experiência analítica possa acontecer. 

Para o psicanalista estar em um setting é preciso mais que um diploma, pois não há conclusão, a psicanálise é terminável e interminável, o tripé supervisão, estudo teórico e sua própria análise são essenciais a esse processo.


Referências bibliográficas

GIL, Antônio C. Como elaborar projetos de pesquisa. 5. ed. São Paulo: Atlas, 2010.

JOVCHELOVITCH, Sandra. Os contextos do saber: representações, comunidade e cultura. Petrópolis, RJ: Vozes. (2008).

MELO et al. As dimensões da comunicação na obra freudiana. Contextos Clínicos. (2017) Disponível em: disponível em: http://pepsic.bvsalud.org/pdf/cclin/v10n2/v10n2a09.pdf. Acesso: 28/fev/ 2022. OLIVEIRA, Karla. Funcionamento dos mecanismos de defesa na Psicanálise. RJ: IBPC, 2020. Disponível em: https://www.psicanaliseclinica.com/funcionamento-mecanismos-de-defesa-psicanalise/ http://pepsic.bvsalud.org/pdf/cclin/v10n2/v10n2a09.pdf. Acesso: 28 fev. 2022.

PSICANÁLISE CLÍNICA. Módulo 09. Curso de psicanálise. 2020. Disponível em: https://membros.psicanaliseclinica.com/pratica2022-1-sa2h/

          

Autoria: Maria Helena
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quarta-feira, 8 de março de 2023

Tendência do ensino escolar no Brasil

                                 

Maria Helena

            O momento atual traz em seus projetos pedagógicos muitos vocábulos que, ainda, não possuem um significado na vida dos docentes.

         Durante a década de 1980, enquanto cursava pedagogia e, após nos cursos lato sensu e stricto sensu, fazia sentido propor a formação de sujeitos críticos. Porque naquele momento a escola, por meio de seus movimentos e o docente em sala, somente conseguia transferir os conteúdos. Com uma ressalva, os estudantes ouviam, decoravam e se saiam bem nas provas. Ou seja, havia uma combinação de que aquela escola servia para aquela sociedade. 

         Determinados grupos passaram a questionar se seria aquele o papel social da escola, repassar conteúdos científicos, históricos, sem ao menos refletir, compreender, verificar a quem favorecia tal política. O movimento vai ganhando força, contudo aquele que é o ator principal, o docente, muitos deles não compreenderam a raiz da questão. Esses ficaram com uma compreensão rasa, pois a própria academia começa a ter questionado o seu papel, enquanto formadora de formadores.

         Nesse contexto, aquele professor/a que antes sabia o seu papel de ensinar os conteúdos, passa a duvidar dos próprios conhecimentos. Como irá ensinar a ser um aluno "crítico, reflexivo, propositivos", se não havia desenvolvido em si essas habilidades? Não conseguia participar de grupos de estudos, reuniões, de fato, pedagógicas. Exigiu-se uma postura de um grupo, sem oferecer as ferramentas necessárias.

          Hoje com muitos documentos, a exemplo da BNCC, diretrizes curriculares para a formação de docentes, vejo o docente ainda muito perdido, pois não consegue o tempo necessário para incorporar as teorias. A "moda" passa muito rápido. Como irá ensinar a contemplar, interpretar, entender de estética, ética, se não é oportunizado contextos  onde possa explorar, vivenciar, desenvolver um senso de percepção acerca dos assuntos aos quais deve abordar em sala de aula?

         Está ainda se confundindo (a academia) tempo de se informar com o tempo de aprender. É preciso tempo para compreender o que faz sentido, o que é significativo, simbólico para si, para a partir disso colocar em sua bagagem docente, como ferramenta de ensino.

        A sociedade teima em fingir que a pandemia não existiu, ou se existiu não deixou sequelas, medos. 

        Neste canal tenho posts que escrevi durante a pandemia, entendendo que a mesma ofereceria um cenário propício às pessoas de reverem aquilo que é nobre, essencial em suas vidas. Sendo a escola uma instituição social, em minha ingenuidade faria a tarefa de casa. Mas, parece que me enganei. 

        O que percebo são colegas tentando participar de vários cursos (quantitativo) na ânsia de aprender a se salvar e salvar seus alunos deste contexto "poluído". Mais uma vez o pacto da mediocridade impera. Se na década de 1980, os docentes não entendiam muito o que a "elite pensante" pontuava, agora me parece similar.

        Os professores/as precisam serem ouvidos. Não estou falando da revisão do Projeto Pedagógico onde pais, estudantes e toda a comunidade traz o seu ponto de vista sobre a escola. Estou tratando do assunto de ouvir os profissionais da educação, em essência, aquele que vê e vive o chão da escola: quem são seus alunos, o que pensam, qual o presente e o futuro do ensino, o que e porque ensinar, o que o/a docente deseja aprender. Sem ficar preenchendo quadrinhos de Conae, PME, seminários, onde o/a professor/a é retirado da sala e vê apenas um fragmento, sem compreensão de um todo.

         Ratifico, para se apropriar de algo, isso deve fazer sentido, e demanda tempo. É necessário rever o papel social da escola. Não apenas ir atualizando como uma agenda, ajustando uma roupa que não serve mais. Parar de falar de futuro e sim planejar no presente para o presente. Perguntar para onde estão indo as tendências de ensino. 

        Se a escola cumpre, de verdade, uma função social necessária, é preciso respeitar o tempo que ela necessita para se olhar no espelho e reconhecer se ainda sabe a que veio, entender o que a sociedade espera dela. É imprescindível à escola um tempo para respirar, manter-se em seu íntimo. Mesmo sendo pública, por vezes, a escola precisa estar privada de muitas informações desencontradas, para descobrir seu sentido, na atualidade.

   Qual a tendência pedagógica está descrito no projeto pedagógico de sua escola?


Autoria: Maria Helena
Blog: Continuando Formação - https://continuandoformacao.blogspot.com/
Texto original. Ao reproduzir ou citar, mantenha a referência da autora e da fonte.



segunda-feira, 26 de dezembro de 2022

META: EDUCAÇÃO ACOLHEDORA

                                                             

             Maria Helena

             Nunca foi tão evidente tratar a educação como inclusiva, porém no cenário em que vivemos, parece redundante o referido termo. Tratar a educação em sentido amplo, família, sociedade geral e o ensino específico da escola, a inclusão redunda quando tratamos de todos os seres humanos, pois os mesmos devem ser acolhidos em todas as suas especificidades.

            Aqui desejo evidenciar a acolhida aos meus colegas docentes, porque a razão da escola existir é para o ensino dos estudantes, contudo aqueles que estão na linha de frente são os gestores e docentes. Assim, neste ato do ensino híbrido, todo o cuidado possível respeitando os protocolos criados pelos órgãos competentes, estão em tese, sendo cumpridos.

          Uma pergunta: quem conhece uma escola de verdade, viva? como um corpo humano, com todos os seus elementos interdependentes, convivendo, onde há definições puramente didáticas, pois não existe uma rigidez como uma barra de ferro, principalmente quando se buscou e busca uma autonomia por meio da dialogicidade, da reflexão do autoconhecimento. Assim, pressupor que todas as instituições estão conseguindo cumprir com os protocolos definidos pelas secretarias de saúde, segurança, educação, etc...é pura ingenuidade. No entanto, nós professores sabemos que o cenário sempre foi este, todos que instituem sua prática balizados na verdadeira ética, reconhecem a diferença da escola real, da escola idealizada e da escola difundida por parte da mídia. Portanto, o docente sofre duplamente: por ter que atuar em um cenário em que impera o medo e, ainda, por saber que a maior parte da sociedade não reconhece o trabalho do professor como essencial, importante para a mesma.

           Reconheço, por toda minha formação e por 35 anos de docência e gestão, que o interior da escola diverge muito das estatísticas, ou melhor de todo material que tenta generalizar uma escola.

           O momento atual necessita de acolhimento, de escuta acolhedora. Isso está muito bem planejado para os estudantes, o cuidado com as crianças pequenas e, principalmente, com os adolescente, sendo esta uma atitude louvável, diante do quadro que temos percebido onde nossos estudantes, filhos, estão bastante desmotivados, presos, sem muitos sonhos. Porém, neste espaço busco mais um diálogo com meus pares, aqueles que estão em seu cotidiano, planejando, corrigindo, elaborando, cuidando, ensinando, observando, analisando, dialogando...muitas vezes sem uma ilha segura, um ponto de equilíbrio. Diante do: " e agora? como faço?" ter alguém para simplesmente ouvir sem julgamentos, para que a função do professor tenha uma conotação menos solitária. Que o professor sinta que suas decisões estão sendo "aprovadas". Sim, neste momento, é disso que falo. 

         Durante este período tenho recebido mensagens de colegas me perguntando o que fazer e como fazer, se o que está praticando está correto, o que penso. Eu respondo que a sua ação é o que sabe fazer no momento, se está agindo com sua ética, coração, está correto.

          Temos muitas instituições onde não há uma equipe pedagógica, no sentido de coordenação/orientação. E quando há, em um cenário, como estamos vivenciando, são muitas decisões focadas por dia, assim nem sempre são reservados tempos, (sim, pois tempo é construção humana, o relógio foi criado pelo homem) para poder partilhar com os professores que as angústias são de todos os profissionais, todos estão em uma situação necessitados de um acolhimento, de um "-estamos diante de hipóteses".

        Colegas devemos lembrar que somos profissionais por formação, com nossos certificados, prestamos nosso serviço à sociedade. Contudo, devemos lembrar que ensinamos mais pelo exemplo do que por nossos discursos pedagógicos. Não estou tratando de egoísmo, portanto cuidar do outro é um ato de amor, assim como o cuidar de si. Vamos experimentar?


Autoria: Maria Helena
Blog: Continuando Formação - https://continuandoformacao.blogspot.com/
Texto original. Ao reproduzir ou citar, mantenha a referência da autora e da fonte.

quinta-feira, 8 de dezembro de 2022

MARKETING EDUCACIONAL EM UMA CONCEPÇÃO DEMOCRÁTICA DE EDUCAÇÃO: LIMITES E PERSPECTIVAS

 Maria Helena 


Resumo:
O presente artigo decorre da solicitação do professor Ricardo Espínola na disciplina de Marketing Educacional desenvolvido no curso de Especialização em Orientação, Supervisão e Gestão Escolar na Instituição Esucri – Criciúma/ SC. O tema está relacionado a analise do contexto escolar em que se vislumbra a colaboração do marketing não como promoção de vendas de produto. No entanto, como conhecimento da realidade educativa em evidência para elaboração de estratégias adequadas à eficácia da instituição, em seu papel social.
Palavras chave: Marketing. Escola. Democracia.


1 INTRODUÇÃO

A educação brasileira em sentido amplo desenvolve-se de acordo com sua construção histórica e cultural. No que se refere à educação escolar sua sistemática conforme a conhecemos atualmente é bastante recente, haja vista, em nível de legislação ser citada em 1934 com a área da saúde. No que concerne ao termo marketing utilizamos o conceito de Philip Kotler que afirma marketing ser o processo social e administrativo através da criação e troca de produtos e valor com outras pessoas.


2 UM POUCO DE HISTÓRIA DA EDUCAÇÃO BRASILEIRA

                Toda pesquisa necessita de um aporte teórico para que seja considerada científica. Portanto, os procedimentos metodológicos, de acordo com Otani, 2004, uma pesquisa científica é um grande passo, quer para um sujeito, quer para a sociedade, pois se utilizam de seus resultados em sua prática social, portanto exige rigorosidade em sua trajetória. Segundo Gil (2002 apud OTANI 2004, p. 33) a pesquisa busca respostas aos questionamentos elencados, destarte exige racionalidade e sistemática, ou seja, neste caso, por meio das leituras efetuadas compreender em que mediada o marketing é uma ferramenta em favor a educação em meio a um cenário capitalista cuja estratégia é a visão neoliberal e a globalização ou um instrumento necessário para a concretização dos indicativos a uma educação democrática.
             A partir de dados obtidos no preâmbulo da Constituição Federal Brasileira, onde busca assegurar o exercício dos direitos sociais e individuais, a liberdade, a segurança, o bem-estar, o desenvolvimento, a igualdade e a justiça fundada na harmonia social com a solução pacífica das controvérsias, nos Princípios Fundamentais, entre eles o da cidadania, a dignidade da pessoa humana a de construir uma sociedade livre, justa e solidária é possível fazer algumas reflexões sobre a educação escolar. Visto esta acontecer em um cenário, no dizer de Freire, onde há oprimidos e opressores.
          No dizer de Tardif (2002) é como se fossem dois trabalhos distintos dentro da educação escolar, os produtores do saber e os que executam. Não obstante, estas questões são reais e necessitam ser transformadas em problematização. Em que medida a escola dentro dos parâmetros propostos pela legislação vigente atende a camada popular? Isto precisa ser ressignificado pela reflexão na prática e sobre a prática docente (WEFFORT, 1997).
            Neste sentido,  a Proposta Curricular/SC (2005) a qual se posiciona teoricamente na concepção sócio histórica, aprovisionando um arcabouço capaz de sustentar uma metodologia “em que o estudante possa apropriar-se dos conceitos científicos significativos que lhe possibilitem lidar bem com sua realidade sócio-histórica e acessar as riquezas materiais e espirituais socialmente produzidas” (PC/SC, 2005, p.12). Neste sentido trazemos a questão da gestão, pois a escola é dirigida por profissionais. O termo gestão passou a fazer parte do cenário educativo, assim como em qualquer organização. Contudo, a escola não é uma empresa, tem um papel social bastante definido e regimentado por legislação pertinente, tem a função de difundir o conhecimento.
             A escola nascida somente para uma determinada elite, com a sua popularização, chega a todas as camadas sociais. Isto significa que, atualmente, os estudantes tem acesso às varias instituições, dos vários níveis. Percebe-se aqui um avanço com relação ao direito à educação escolar.


3 MARKETING E EDUCAÇÃO

           É de conhecimento dos educadores que estamos imersos em um contexto de competição, em todos os aspectos. Com a popularização da escola e do mundo da prestação de serviços, sabemos que a atualização é bastante inconstante. Que a sociedade atual necessita de profissionais capacitados para atuar de forma competitiva no mercado contemporâneo. Neste cenário, caracterizado pela expansão do sistema de formação quer acadêmica, quer por demais instituições o aumento da concorrência entre os estabelecimentos se fortalece a cada dia, torna-se capital o emprego de ferramentas que contribuam para a sustentação e estabilização dessas organizações no mercado.
             De acordo com Espíndola (2011) é quase impossível comprar a fidelidade de um cliente, contudo conquistá-la é plausível. Ainda de acordo com o referido autor, embora as escolas apresentem um papel social diferenciado em sua prestação de serviços, elas trabalham com produtos, pois se espera da escola o ensino e com clientes, contudo existe uma relação vendedor comprador com um diferencial.
            Quando Espíndola (2011) cita (KOTLER1998), enfatizando que satisfazer o cliente significa trabalhar com mercados na tentativa de realizar as trocas em potencial com o objetivo de satisfazer as necessidades e desejos humanos é importante salientar a seriedade deste aspecto no que se refere à educação, principalmente às crianças e adolescentes do século XXI. Pois é uma geração com características e necessidades bastante distintas do século XX. A instituição que se eximir desta percepção estará, de fato, fadada ao fracasso.
           Conhecer as demandas atuais e futuras é tarefa da escola atual. As possibilidades a curto, médio e longo prazo para que não se perca nestas contradições em que está imersa a escola. As instituições de ensino estão inseridas em um contexto constituído por múltiplos fatores, mesmo com planejamento, ainda, são imprevisíveis, e por que não dizer provisórios em muitas circunstâncias improvisados. Caracterizando como oportunidade em fazer da escola uma instituição que necessita conhecer a sua missão, suas metas e objetivos, fornecendo pistas à nova geração de um mundo contraditório, no entanto “contaminado” por seres humanos.


4 CONCLUSÃO

             No que tange a pesquisa, ora feita, é possível inferir que, mesmo em um sistema capitalista com uma visão democrática de educação, quando se concebe o marketing como um estudo da realidade buscando pontos frágeis e fortes na ânsia de aprimorar os trabalhos torna-se possível haver uma compatibilidade.
           É importante salientar, contudo, se a compreensão do marketing acontecer como promoção de produtos com o fim de, somente, o lucro se tem aqui um paradoxo no que se refere à educação democrática, haja vista o pais possuir nuances bastante distintas de suas classes sociais. Neste caso, a gestão escolar há que possuir uma formação ampla, não somente pedagógica no sentido estrito, não obstante em sentido vasto, apreendendo a educação e o marketing como elementos de uma mesma face social. Fazendo uma leitura antropológica de sua instituição e de seus atores a fim de oferecer uma educação que, de fato, forme para a cidadania.

REFERENCIAS
CLARO, Alberto Entrevista com o professor Dr.Alberto Claro sobre MARKETING EDUCACIONAO, por Marcello Chamusca, do Portal RP-BAHIA. Disponível em: Acesso em: 17 de maio. 2011.
CONSTITUIÇÃO DA REPÚBLICA FEDERATIVA DO BRASIL DE 1988.
ESPINDOLA, Luiz Ricardo. Fundamento de Marketing. Criciúma, SC, ESUCRI, 2010.
FREIRE, Paulo. Pedagogia da Autonomia. São Paulo: Paz e Terra, 1996.
OTANI, Nilo. Metodologia do trabalho científico. Criciúma, SC, ESUCRI, 2010.
SANTA CATARINA, Secretaria de Estado da Educação, Ciência e Tecnologia. Proposta Curricular de Santa Catarina: Estudos Temáticos. Florianópolis: IOESC, 2005.


Autoria: Maria Helena
Blog: Continuando Formação - https://continuandoformacao.blogspot.com/
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terça-feira, 29 de novembro de 2022

PERMACRISE: NECESSIDADE EM ENFATIZAR A CRISE?

                                    Maria Helena

                  Se para muitos a crise é uma oportunidade, onde se pode fazer emergir a criatividade, a iniciativa, a inovação, parece que, para determinado grupo, enfatizar a crise como um permanente estado de sofrimento é novidade. Como se somente a última década trouxesse tantas situações que levam o sujeito ao mais alto nível de "luta ou fuga".
              O ser humano vem escrevendo a sua história em meio às situações diversas, pois não existiria movimento nenhum na natureza, se não fossem os atritos. Nem a luz haveria. Por que  existe a luz? Estaria a humanidade em busca de um estágio neutro? Inerte? 
              Que satisfação tem esta parcela da humanidade que sente prazer e, acumula seus pseudotesouros apavorando os jovens e a população que sofre com transtorno do pânico, estresse, depressão, ansiedade, etc? 
            Permacrise, foi somente por meio de crises, atritos que houve o que se denomina desenvolvimento humano. Guerras, são novidade? Epidemias, pandemias? Catástrofes naturais ou provocadas pelo ser Inteligente Homem, são novidades? Crises permanentes.
            O que há de novo, diante de minha frágil reflexão: não havia a banalização com muitos eventos, havia a naturalização. Com a banalização, determinado grupo precisa transformar isso em consumo midiático, para que não passe desapercebido, não despercebido, mas de prevenir, desprevenido, pois, no caso, haverá o perder a "oportunidade" do ganho...que paradoxo... 
            Há de novidade, a velocidade da informação, não do aprendizado, conhecimento...são informações rasas. Isso, para negligenciar, mesmo, para não aprofundar...Pensem...e se o povo passar a refletir diariamente que sempre houve toda a forma de crises, que viver feliz permanentemente é ilusão, é o canto da sereia...se as pessoas analisarem a própria vida e perceberem que o grande teatro montado só funciona, pois, os atores não se percebem como autores da própria vida?
            Permanente estado de crise, atritos, movimento, oportunidade...é e não é o mesmo mundo, basta escolher um prisma para decidir e viver, entendendo que é o movimento natural, com a intervenção humana, direcionada para o que se deseja.