segunda-feira, 3 de outubro de 2022

Observar, perceber e ser presença

                                                                 Maria Helena

 

Observar algo é um aprendizado, porque demanda um limpar a mente de quaisquer resquícios sobre o objeto/sujeito a sua frente. Não estamos acostumados a ter essa posição, pois estamos sempre cheios de ideias prontas sobre aquilo/aquele que nem conhecemos.


Diante de algo que desejamos, de fato, nos apropriar precisamos ter muito cuidado. Isso vale muito para formas de relacionamento profissional ou pessoal. É um exercício diário.


Enquanto professora, foi um aprendizado contínuo, tentar observar cada ser em um grupo, até aprender técnicas de como utilizar esta valiosa ferramenta. Nossa dificuldade, também, se pauta pela nossa compreensão de planejamento. Temos uma teoria de que ele é flexível, no entanto, ao desenvolvê-lo, nossa visão rígida não nos permite a humildade de estar aberto, ao que realmente acontece.


Temos uma tendência a perder a espontaneidade diante do que É, o real. Buscamos em nossa mala de "experiência" algo pronto para aquele momento, e perdemos uma oportunidade em aprender. Não estou afirmando que não devamos estar preparados, ter a formação necessária. Na verdade, eu lamento muito por aqueles que não percebem a necessidade de ser um permanente estudante, autonomia intelectual.  


Uma das constatações que fiz, foi a de ter que me conhecer, para além do conhecimento científico, me conhecer enquanto ser, identificar quais valores guiam a minha vida, qual o sentido dou para as minhas atitudes e tarefas diárias. Entendo que em muitas profissões, a correria não permite isso. Fiz minha escolha enquanto era professora, de ter esse tempo para pensar, analisar, revisar o que faz sentido para mim e, consequentemente, para os que me cercam.


Assim, para saber observar, ouvir e compreender, eu deveria me livrar de preconceitos, de “anestesias” para ver o outro naquilo que ele se apresenta ou representa ser.


Esse exercício constante demanda tempo, demanda transformar a perspectiva sobre a vida própria e dos seus semelhantes. É preciso um ouvir atento, uma atenção inteira. Hábito que, geralmente, não possuímos, pois estamos sempre buscando algo para a “distração”. Assim, nem atenção com o outros e nem consigo mesmo.


Essa urgência pelo viver suscita uma pergunta, o que pode estar por trás disso. É urgente viver sim, contudo de tal maneira que se consiga conviver com a própria companhia, estar presente na própria ação. Parece paradoxo, mas não é. Muitas vezes não percebemos o que comemos, dirigimos longos períodos sem “ver” o que passa. Há uma ausência de si. No entanto, precisamos aprender a estar presente na ação, questionando o sentido da mesma.


Almejamos ter uma vida mais plena, mais leve, mais harmoniosa, portanto, precisamos a cada momento, bater  à própria porta e perguntar: “estás em casa?”.


 Realmente, estar em sintonia com o momento, sem julgar. Sentir o outro em seu tempo, observá-lo e ser honesto, não pode ser uma negociação, um puro treinamento. Existem muitas formas de cursos que auxiliam, mas algumas vezes é como se tentasse pintar o tronco e folhas de uma árvore, é artificial, não há consistência. Pois não mexe na terra, nas raízes. É preciso uma imersão e reconhecer o verdadeiro desejo do viver, do ser que transcende muito àquele que criou personagens adequados a cada situação.


Precisamos reconhecer o nosso fundamento, aquilo que nos move, que nos faz desejar agradecer pelo evento de estarmos aqui.

Que tal experimentar este exercício?

 

 Autoria: Maria Helena

Blog: Continuando Formação - https://continuandoformacao.blogspot.com/
Texto original. Ao reproduzir ou citar, mantenha a referência da autora e da fonte.

quinta-feira, 11 de agosto de 2022

Escolhas

                                                    Maria Helena

           Cecília Meireles, poeta brasileira, foi muito simples e direta em uma poesia para crianças Ou isto Ou aquilo (1964). Onde a criança sempre tem que optar entre duas situações.

                  No universo infantil, a criança não quer perder a oportunidade, ela deseja os dois, estudar e brincar, ficar com o doce e o dinheiro, faz birra e a cada dia faz as escolhas, por momento...

Trazendo para o universo adulto é mais complexo. Porque as escolhas são muito bem estudadas, por vezes, mais pela representação do que pela sua essência, mais pela avaliação dos demais do que pelo próprio desejo.

Por vezes vivemos de uma forma a qual devemos nos enquadrar, para tanto estudamos um personagem, ou uma forma para não sermos julgados e acabamos perdendo a nossa essência e não sabemos quem somos, ou o que somos.

Se...concordamos de imediato denota que não fazemos reflexão; se não concordamos, então somos “do contra”; se iniciamos uma conversa, somos inoportunos; se não falamos “não nos misturamos”, e assim vai...

Reconhecer uma necessidade imediata, uma simples escolha não pode tornar-se um fardo, a cada dia somos colocados em frente a muitas situações e precisamos fazer as escolhas, ou alguém as fará por nós.

Toda opção vai além do desejo de somente agradar aos outros, às avaliações externas. Não se pode parecer livre para escolher, é necessário ser autêntico em seu jeito livre de buscar as alternativas essenciais da vida. Considerando e reconhecendo onde estão nossos valores primordiais, sendo essa, diferente de prepotência, soberba.

Quando temos os princípios de vida pautados no que há de mais nobre em nossa vida, o amor, a compaixão, a esperança, dificilmente erramos, porque nossas escolhas Ou isto Ou aquilo estarão coerentes à nossa essência, nossa jornada. 


Autoria: Maria Helena
Blog: Continuando Formação - https://continuandoformacao.blogspot.com/
Texto original. Ao reproduzir ou citar, mantenha a referência da autora e da fonte.



quinta-feira, 28 de julho de 2022

Doença é o avesso da saúde?

 

                                Maria Helena

Assim como uma tela permite a expressão de um artista, o corpo permite a expressão, somatizando o que não consegue representar de outra forma, pela comunicação da fala, por exemplo.

 Não basta mudar a metodologia na saúde, avançar em técnicas, há que se entender o que é uma doença, o que é a saúde. Tanto a doença quanto a saúde acontecem em um corpo físico, psíquico, emocional, intelectual, espiritual...em um Ser.

O humano busca uma lógica. Contudo, teria capacidade de raciocinar logicamente sobre tudo? Ou como na mitologia acaba criando explicações plausíveis (nem tanto) para determinados grupos?

O belo, por exemplo, tão elucidativa na arte, não se explica, faz-se a fruição. Podemos optar pela arte de viver, assim buscando linhas filosóficas que relevem tal escolha, portanto necessita de uma visão de ciência toda própria para justificar os percalços do cotidiano, como a doença.

Entendo que, atualmente, se trata de saúde emocional, familiar, social, profissional...no entanto, por que falamos de muitas “doenças” em um corpo e não falamos muitas “saúdes”? Se um corpo pode ter doenças, então o contrário dessas não é a saúde, pois essa se fala no singular. Ou não existe doença no plural? É mais compreensível, pois é UM corpo que sofre com alguma desarmonia, mesmo que o desconforto se espalhe de várias formas, em diferentes órgãos. É UMA consciência, UM ânimo.

Não é somente uma questão de alternar métodos de cuidar da saúde por determinados órgãos, quando esses na verdade lidam com doenças. Homeopático ou alopático, natural ou industrializado, oriental ou ocidental. É mais que isso, não é meramente criar recursos tecnológicos capazes dos mais apurados diagnósticos, trata-se de ouvir o Ser cuja saúde está desarmonizada.  Ouvir os seus sintomas, a sua história, mas isso demanda uma equipe multidisciplinar, que irá juntar os vários olhares e ter uma justaposição, somatória, ainda assim, a alma anseia em se expressar, em comunicar que não está bem.

sábado, 23 de julho de 2022

Talvez essa "tal" felicidade

                                                     Maria Helena 

Talvez a pandemia tenha evidenciado mais o conceito do termo felicidade. 

O conceito de felicidade é amplo. O antônimo de feliz é infeliz, que significa: suas vontades desejos, objetivos não foram realizados; medíocre; desgraçado; pessoa que suscita pena. 

Aquele que persegue a "tal" felicidade, percebe que seu antônimo é infeliz? 

Penso que a maioria das pessoas busca considerar suas qualidades, seus momentos especiais, suas possibilidades. A impressão que passa é que poucas pessoas se sentem bem no lugar de ser digno de pena. Aquele despossuído de qualquer graça, ou o desgraçado. 

Talvez seja necessário fazer uma reunião com o "Eu mesmo" para uma análise daquilo que se entenda por felicidade, o que é, quanto tempo dura, como conseguir, entre outras. 

Quando se sentir alegre contabilize. Ao sentir-se satisfeito, contabilize. Diante de uma situação de contentamento, por menor que seja, contabilize. Ao sentir tristeza, Cuidado! não confunda os sentimentos: existe raiva, culpa, medo, constrangimento, entre outros. Tome contato com o que está sentindo. Muitos desses estão mascarando outros sentimentos os quais não conseguimos representar por palavras. Observe o que causou e  perceba o que precisa para atravessar tal situação: Paciência? Calma? Empenho? Perdão? Coragem? Fé?

  Divida as alegrias, contentamentos e satisfação com aqueles que partilham o mesmo espaço, mas evite partilhar seus sentimentos mais puros positivos ou negativos com o primeiro que aparece, pois aquilo que te é muito importante, o "Outro" pode desqualificar.

Talvez seja importante rever o que é ser infeliz, para poder resssignificar o que é estar feliz, perceber que a dinâmica da vida, por ser um movimento intenso, ocasione tantas situações incertas, decepcionantes, tristes. Contudo, o oposto acontece na mesma proporção. Porém, nossa memória se fixa no que causou mais pânico ou similar.

Não significa que ao final da reunião, auditoria com o "Eu mesmo", a matemática esteja errada. Precisa simplesmente rever.

Quem sabe esqueceu de colocar na reunião todas as pequenas vitórias, todas as lágrimas de alegria, todos os sorrisos de contentamento. Quem sabe esteja esperando que, de fato, a vida seja um outdoor de propaganda da família feliz. E não parou para pensar na dinâmica da vida, as suas transformações. Quem sabe...

Talvez aqueles que estejam querendo se conhecer entendam que tudo o que é dinâmico, se transforma, cresce. Aqueles que estão viajando para dentro de si passem a observar a natureza em seus ciclos e talvez, quem sabe.. percebam tanta "coincidência", e que somos a natureza, portanto seguimos as mesmas regras.

Talvez as pessoas estejam compreendendo um pouco que, de fato, são as pequenas alegrias que contam. E a soma de todo pouquinho do que é bom e positivo possa se chamar vida plena. Talvez...



terça-feira, 8 de março de 2022

A psicopatologização das emoções no divã

                                                                            Maria Helena

                       

Partindo de estudos do Módulo III do curso de Psicanálise Clínica e contrapontos de outros autores, a descrição dos fenômenos ganham vida própria, balizados em conhecimentos científicos.

Em tempos de pandemia até os preconceituosos de renderam e estão procurando “tratar” de suas “neuras”, pseudônimo utilizado para designar algo de que, ainda, não possui nenhum diagnóstico. Contudo, sabe que está se distanciando do que se conhece como saudável.

A personalidade de um adulto vai se constituindo, a partir de sua interação com um objeto presente ou não, ou seja, algo cultural, histórico. Portanto, desta relação intersubjetiva onde vários elementos são contextualizados o sujeito, percebendo o seu entorno, o “outro”, percebe-se como um em SI, o EU que não é mais uma extensão da mãe/pais/cuidador/a.

Para Freud, todo sujeito passa pelo desenvolvimento psicossocial e esse possui fases: oral, fase anal, fase fálica, período de latência, fase genital. Em cada fase, a libido obtém mais satisfação em uma zona erógena diferente e o conceito de sexualidade, para o autor, vai além de sua definição relativa ao sexo. As fases não são estanques e nem lineares variando entre sujeitos, pois dependem das experiências subjetivas de cada sujeito. Cada fase pode deixar marcas permanentes, denominadas de pontos de fixação, onde o curso “normal” pode ser alterado porque certos conflitos podem se instalar. Desse modo, são gerados “pontos” nodais “que vão se fixar em determinado estágio e que serão retomados quando um período de crise (representação emocional) aparecer ao longo da vida da pessoa” (MÓDULO III, 2020, p. 10).

A Psicanálise é um método investigativo, método terapêutico ou clínico é, ainda, uma forma nova de abordar o ser humano, a cultura e a sociedade. Diante disso, explorar esses campos, do humano vivendo em sociedade, fomenta a cultura e dela se alimenta, significa que quando um sujeito vai para o divã, ele vai acompanhado de muitos elementos.

Domingues et al (2014) trazem importantes reflexões acerca do contexto em que vivemos, são rotinas organizadas pela sociedade, preenchendo todos os horários dos sujeitos, sendo a hiperatividade uma forte característica da atualidade. Essa agitação advinda pelo excesso de informações e ações não permitem que o sujeito possa apreciar seus próprios sentimentos, experimentar cada diferente emoção de um jeito saudável e, sim, da forma criada e formatada pela sociedade. Deve passar pelos sentimentos de forma padrão, sendo meio que obrigado a responder de forma elegante, alegre, desconsiderando suas reais emoções. Isso fica evidenciado nos próprios velórios se comparados há anos atrás. O luto sofrido, atualmente, o enlutado é encaminhado aos consultórios psiquiátricos e psicológicos, como se não devesse passar pela dor da perda.

A pandemia está sendo um fator preponderante para aumentar o número de   estados depressivos. O vírus, talvez esteja liberando a angústia, tristeza, frustração que muitos vinham sentido de forma isolada e passou e ser percebida de maneira generalizada, de massa. Talvez haja uma patologização das emoções, uma banalização de quadros que, em princípio deveriam ser observados como adaptação a um novo paradigma, um estresse natural e saudável, para uma percepção de um mundo doente, devendo esse ser medicalizado, não havendo amigos ou familiares com escuta acolhedora, existem sim os ansiolíticos, entre outros psicotrópicos.

Para trazer dados mais fidedignos seria necessária uma pesquisa quantitativa, por ser mais convincente neste mundo globalizado. No entanto, quando na atualidade designada pela ‘academia’ contemporânea, são tantas as teorias.

Guareschi et al (2021) trazem reflexões sobre a própria forma de pesquisa na área da psicologia, pois ter como indicadores: crenças, valores, motivações, nunca foi e nem como tem que ser, mensurada. Se a palavra de ordem da vez é pós-verdade, como entender a comunicação como um indicador, sendo as máquinas que fazem as leituras da maioria do material postado na internet. Os sentimentos percebidos por meio de uma conversa, onde dois sujeitos interagem, exclamam, riem, possibilita uma leitura além do que aparenta, pois está carregado de emoção. Assim, fora de um consultório, em que há um trabalho legitimado na escuta e observação, o cotidiano dispõe de whatsApp, facebook, entre tantos outros para curtir, compartilhar e por aí vai, literalmente, se expandindo, como efeito cascata aquilo que, alguém ingenuamente ou não, postou.  A espera de um like gera ansiedade, talvez quem curtiu faça desta ação uma rotina em partilhar, curtir todas as postagens de seus “amigos”.

Os referendados autores seguem suas reflexões no sentido de que a psicologia, atualmente, conta com uma potente ferramenta em questão de pesquisas quantitativas, o enorme número de informações a que se tem acesso para poder triangular dados de todas as formas. Porém, difícil se aproximar de um perfil fidedigno do sujeito que está disponível para o mundo, literalmente.

Ao desenvolver os argumentos no sentido de diálogo entre os autores aqui explanados é possível verificar que, na atualidade, não é presumível ter uma verdade absoluta sem que seja contextualizada. A realidade não representa a todos, pois nem sempre o que aparenta é aquilo com o qual o sujeito se identifica.

 Para uma apresentação didática de fatos, teorias existem fases, períodos, contudo nunca podem ser estudados generalizando-os de forma estanque, ou com um ponto final.

Votando à visão psicanalítica de Freud, as diferentes formas de organização psíquica não são, em princípio, patológicas, essas possuem suas características, devendo ser estudadas cuidadosamente para não enquadrar o analisando em uma “patologia” e fragmentá-lo de si e da sociedade.

Diante ao exposto, a própria patologia cunhada nos manuais médicos, ao serem estudadas e comparadas ao paciente, para enquadrar neste ou naquele diagnóstico, deve estar muito claro para que não sejam simplesmente prescritos uma série de medicamentos, sem ao menos ouvir, sem estereótipos o que o paciente sente, sofre e percebe de si mesmo. A variação, as fronteiras de cada patologia devem ser ampliadas. O profissional deve estar sempre atento às pistas do seu paciente, deve também levar em consideração o contexto em que o sujeito vive, sua cultura em todas as suas nuances, fazer a leitura do não verbal, para poder errar menos em seu diagnóstico e prognóstico.

 

Referências bibliográficas:

MÓDULO III - curso de formação em psicanálise - psicanaliseclinica.com (2020)

DOMINGUES, Elzilaine; CAMARGO, Mendes T.; BARA, Viana O. Melancolia e depressão: um estudo psicanalítico. (2014) Disponível em: <SciELO - Brasil - Melancolia e depressão: um estudo psicanalítico melancolia e depressão: um estudo psicanalítico>. Acesso em: 15 de jul. 2021.

GUARESCHI, Pedrinho A.; AMON. Denise; GUERRA, André. E. Abrapso. Psicologia, comunicação e pós-verdade. Porto Alegre, 2019.

quarta-feira, 5 de janeiro de 2022

Análise de “Práticas e Procedimentos em Clínica Psicanalítica”

 

                                                               Maria Helena

“A psicoterapia é um valioso recurso para lidar com as dificuldades da existência em todas as formas que o sofrimento humano pode assumir [...].” (MÓDULO 09, 2020, P. 05) E isto não pode ser apenas uma frase bonita, que chamou a minha atenção. É profundamente uma percepção do que vem a ser os momentos que a psicoterapia pode favorecer de mais humano para uma pessoa que está com um sofrimento causado por suas emoções.

“A boa terapia se desenrola num enquadre clínico com um vínculo que favorece este processo. Aí está um dos segredos desta arte: criar um ambiente que permita a revelação dos mundos internos e favoreça o desenvolvimento do processo singular de cada um. ” (MÓDULO 09, 2020, P. 10). Percebe-se que não é qualquer profissional ou ambiente que conseguirá fazer com que um paciente, cliente, analisando, enfim uma pessoa se sinta tão à vontade, ao ponto de expressar sua mais profunda dor.

De acordo com o Módulo 09, a base de uma boa terapia está na relação terapêutica, quando se desenrola em uma harmonização cujo vínculo favorece o processo. Sendo um elemento fundamental, portanto, o ambiente pois deve possibilitar que o mundo interno do analisando consiga emergir, ainda beneficiando o desenvolvimento da dinâmica da singularidade individual. Nesse clima, é possível ao ser mais oculto e amedrontado se mostrar, ser ouvido, transformar-se.

Nesta acepção, Weffort (1995) afirma que só é possível olhar o outro e sua história se temos em nós uma abertura de aprendiz que estuda a própria história. Assim, a ação de olhar é um ato de estudar a si próprio, a realidade, à luz da teoria que inspira.

No sentido da atenção, a contribuição vem da filósofa Simone Weil que afirma ser esta a mais alta forma de generosidade. O método para compreender os fenômenos, portanto, seria olhá-los até que irrompa a luz, sem qualquer forma de interpretação e nem um apego. (BOSI, 2003).

Weffort (1995) assevera que nossa educação não permitiu olhar pensando o mundo, a realidade, nós mesmos e este olhar cristalizado nos estereótipos produziu em nós paralisia, fatalismo, cegueira, entre outras características onde supõe-se ver o que não é real, mas o que se deseja ver.

Em uma entrevista, ou sessão de terapia é necessário estar aberto ao que o outro traz de mais sagrado, a sua história. Assim, para Weffort (1995) a concentração do olhar inclui escuta de silêncios, inclusive os ruídos na comunicação, que podem ser inclusive do psicoterapeuta.

Pelos estudos, um momento fundamental da psicanálise é a entrevista, entendida como o estudo da alma do analisando, e, se difere muito do preenchimento da ficha de anamnese.

Assim, o espaço psicanalítico é o ambiente de ouvir, no entanto, vale pensar se sabemos de fato, escutar o outro na sua história.

No dizer de Weffort (1995) o ver e o escutar fazem parte do processo da construção do olhar. E frequentemente não ouvimos o que o outro nos diz e sim se escuta aquilo que se gostaria de ouvir, e se imagina aquilo que o outro estaria tentando comunicar, porque não se parte de sua fala, porém de uma fala interior. É muito sério isso de produzir um monólogo. Pois o di-álogo, são dois.

Outro item importante para este ambiente acolhedor da entrevista é o olhar, que para a supracitada autora, atualmente se possui um olhar estereotipado, parado, querendo ver só o que nos agrada, o que sabemos, assim reproduzindo um olhar de monólogo, um olhar e uma escuta dessintonizada, alienada da realidade do outro.

Ver e Ouvir demanda implicação, entrega ao outro. Estar aberto para vê-Io e/ou ouví-Io como é, no que diz, portanto, exige um sair de si para ver o outro e a realidade, segundo os pontos de vista e hipóteses do outro e não da sua.

Diante ao exposto, demanda ao psicanalista um estudo minucioso de si mesmo, se possui tais características, porque não é um exercício fácil. Principalmente depois de adulto, quando este especialista não conseguiu em seu processo de psicanálise, como analisado, ter percebido suas fragilidades de conviver em grupo, por arrogância ou autoritarismo, ou algum sentimento que o impeça de uma convivência harmoniosa.

O espaço em que se ocupa em uma sessão de psicanálise, não é apenas o físico, tempo, há emoções, sentimentos, então para buscar, conversar, tocar no outro, na sua ferida que faz parte da comunicação, por meio das associações que o analisando faz, assim importa que o psicoterapeuta reconheça o seu agir durante este rico espaço.

 

Referências bibliográficas:

BOSI, Ecléia. A atenção em Simone Weil  - Artigos originais  Psicol. USP – 2003. SciELO. Disponível em: https://doi.org/10.1590/S0103-65642003000100002 . Acesso 15/out./2021

WEFFORT, Madalena Freire. Observação, Registro, reflexão: Instrumentos Metodológicos I. São Paulo: Espaço Pedagógico. (1995)

MÓDULO 09. Clínica psicanalítica. Psicanálise clínica. (2020)

quinta-feira, 28 de outubro de 2021

Proposta pedagógica escolar – PPP: leis, normas e práticas

 

        Maria Helena

Passar por diversos espaços escolares nos proporciona experiências singulares e, quando estamos estudando a própria prática, podemos ter bons aprendizados. Trabalhei da educação infantil ao superior, em escolas de rede públicas e particulares, da periferia ao centro, assim pude aprender um pouco sobre o projeto pedagógico. Como assessora educacional em diferentes Redes tive o privilégio de estudar muito material que emergiram do chão da escola, como outros de puro carater técnico, cumprindo leis.

Todos os PPPs possuem o carater técnico e cumprem leis, mas isso não é a razão de ser deste movimento. Sua razão de existir é oferecer um rumo para a escola, em seus aspectos políticos, filosóficos para que o pedagógico possa se efetivar.

Percebo que os posts mais acessados neste Blog são sobre o PPP, portanto observo que, de fato, há um interesse em discuti-lo, compreendê-lo.

Nos 30 anos que observo o PPP, com esta denominação, isto antes da atual LDB, 9394/1996, a escrita do documento não modificou tanto assim, pelo menos em minha região (sul), porém minha compreensão modificou bastante, penso que devido a atitude de poder estar sempre estudando minha prática, percebendo as incoerências discurso-teoria-chão da escola.

Uma das inconsistências percebidas está justamente na base em termos normativos e legal. Muitos municípios, acabam atualizando o PPP da Rede e esquecem de atualizar uma normativa que é referente ao Sistema, o que implica tratar de escolas particulares, quando se menciona a educação infantil. Portanto, leis não atualizadas, divergindo de normas que são da alçada do CME, ainda não incluindo leis federais que incidem sobre a comunidade escolar, exemplo: ECA, Acessibilidade, bullying, entre outras, de acordo com a configuração da escola. Outro exemplo é uma escola que deve prestar contas ao CEE e ao CME.

Outra situação vulnerável à escola é quando esta possui uma prática totalmente divergente da apontada no PPP, em qualquer aspecto que esteja imerso no fazer pedagógico, porque a razão do existir de uma escola é o ensinar e, isto na atualidade, possui uma conotação muito diferente de 20 anos atrás, principalmente devido à BNCC.

Ao analisar Projetos e Regimentos percebo os mesmos divergindo dentro da mesma unidade escolar. Isso faz com que a escola se torne mais vulnerável em termos jurídicos.

Antes de atualizar qualquer PPP, é necessário a escola em um todo compreender o significado deste movimento, portanto é necessário revisar o que as pessoas sobem sobre ele. Para que serve o documento, o que este sintetiza e sistematiza. Reconhecer no PPP a síntese dos estudos, a sistematização necessária para a escola ter a sua prática e menos incertezas, reconhecendo que qualquer pessoa dentro da escola consegue falar sobre o mesmo. Sem dúvida, a partir de sua janela, se é pai, estudante, docente ou gestor.

Veja bem, uma ou outra situação inusitada não prevista no planejamento, normas, regras que são a alma e o corpo da proposta pedagógica é aceitável, pois a escola está viva. Agora, lamento informar, quando semanalmente ocorrem situações, as quais não encontram um amparo no PPP ou RI, é falta de conhecimento da importância dos movimentos de estudos, para chegarem a uma sistematização sólida do documento.

É preciso entender de planejamento estratégico, de teoria de aprendizagem, de linhas filosóficas, de leis e normativas. Necessita elaborar um cronograma e seguir com o mesmo. Não basta colocar os profissionais “discutindo” sobre o plano anterior, é mais que isso. Portanto, é impossível chamar de atualização do projeto, quando ou somente é elaborado pela gestão, ou tentar atualizar em uma semana de maneira contínua. Isso pode acorrer se for a atualização de um item fundamental, sendo uma solicitação do Conselho ao qual pertence, ou ainda avaliar somente as ações previstas para um ano. Porém, a denominação “atualizar”, depois de 4, 5 anos, demanda planejamento e muito estudo da equipe coordenadora do projeto.

Diante ao exposto, seria interessante e prático a escola verificar no sumário do documento anterior e elencar por prioriadde a ordem do estudo, exemplo: linha filosófica, teorias, diagnóstico físico, etc... levar para o grupo segurança, acreditando para que os "outros"também acreditem nas riquezas encontradas durante a reelaboração do PPP.