quinta-feira, 28 de julho de 2022

Doença é o avesso da saúde?

 

                                Maria Helena

Assim como uma tela permite a expressão de um artista, o corpo permite a expressão, somatizando o que não consegue representar de outra forma, pela comunicação da fala, por exemplo.

 Não basta mudar a metodologia na saúde, avançar em técnicas, há que se entender o que é uma doença, o que é a saúde. Tanto a doença quanto a saúde acontecem em um corpo físico, psíquico, emocional, intelectual, espiritual...em um Ser.

O humano busca uma lógica. Contudo, teria capacidade de raciocinar logicamente sobre tudo? Ou como na mitologia acaba criando explicações plausíveis (nem tanto) para determinados grupos?

O belo, por exemplo, tão elucidativa na arte, não se explica, faz-se a fruição. Podemos optar pela arte de viver, assim buscando linhas filosóficas que relevem tal escolha, portanto necessita de uma visão de ciência toda própria para justificar os percalços do cotidiano, como a doença.

Entendo que, atualmente, se trata de saúde emocional, familiar, social, profissional...no entanto, por que falamos de muitas “doenças” em um corpo e não falamos muitas “saúdes”? Se um corpo pode ter doenças, então o contrário dessas não é a saúde, pois essa se fala no singular. Ou não existe doença no plural? É mais compreensível, pois é UM corpo que sofre com alguma desarmonia, mesmo que o desconforto se espalhe de várias formas, em diferentes órgãos. É UMA consciência, UM ânimo.

Não é somente uma questão de alternar métodos de cuidar da saúde por determinados órgãos, quando esses na verdade lidam com doenças. Homeopático ou alopático, natural ou industrializado, oriental ou ocidental. É mais que isso, não é meramente criar recursos tecnológicos capazes dos mais apurados diagnósticos, trata-se de ouvir o Ser cuja saúde está desarmonizada.  Ouvir os seus sintomas, a sua história, mas isso demanda uma equipe multidisciplinar, que irá juntar os vários olhares e ter uma justaposição, somatória, ainda assim, a alma anseia em se expressar, em comunicar que não está bem.

sábado, 23 de julho de 2022

Talvez essa "tal" felicidade

                                                     Maria Helena 

Talvez a pandemia tenha evidenciado mais o conceito do termo felicidade. 

O conceito de felicidade é amplo. O antônimo de feliz é infeliz, que significa: suas vontades desejos, objetivos não foram realizados; medíocre; desgraçado; pessoa que suscita pena. 

Aquele que persegue a "tal" felicidade, percebe que seu antônimo é infeliz? 

Penso que a maioria das pessoas busca considerar suas qualidades, seus momentos especiais, suas possibilidades. A impressão que passa é que poucas pessoas se sentem bem no lugar de ser digno de pena. Aquele despossuído de qualquer graça, ou o desgraçado. 

Talvez seja necessário fazer uma reunião com o "Eu mesmo" para uma análise daquilo que se entenda por felicidade, o que é, quanto tempo dura, como conseguir, entre outras. 

Quando se sentir alegre contabilize. Ao sentir-se satisfeito, contabilize. Diante de uma situação de contentamento, por menor que seja, contabilize. Ao sentir tristeza, Cuidado! não confunda os sentimentos: existe raiva, culpa, medo, constrangimento, entre outros. Tome contato com o que está sentindo. Muitos desses estão mascarando outros sentimentos os quais não conseguimos representar por palavras. Observe o que causou e  perceba o que precisa para atravessar tal situação: Paciência? Calma? Empenho? Perdão? Coragem? Fé?

  Divida as alegrias, contentamentos e satisfação com aqueles que partilham o mesmo espaço, mas evite partilhar seus sentimentos mais puros positivos ou negativos com o primeiro que aparece, pois aquilo que te é muito importante, o "Outro" pode desqualificar.

Talvez seja importante rever o que é ser infeliz, para poder resssignificar o que é estar feliz, perceber que a dinâmica da vida, por ser um movimento intenso, ocasione tantas situações incertas, decepcionantes, tristes. Contudo, o oposto acontece na mesma proporção. Porém, nossa memória se fixa no que causou mais pânico ou similar.

Não significa que ao final da reunião, auditoria com o "Eu mesmo", a matemática esteja errada. Precisa simplesmente rever.

Quem sabe esqueceu de colocar na reunião todas as pequenas vitórias, todas as lágrimas de alegria, todos os sorrisos de contentamento. Quem sabe esteja esperando que, de fato, a vida seja um outdoor de propaganda da família feliz. E não parou para pensar na dinâmica da vida, as suas transformações. Quem sabe...

Talvez aqueles que estejam querendo se conhecer entendam que tudo o que é dinâmico, se transforma, cresce. Aqueles que estão viajando para dentro de si passem a observar a natureza em seus ciclos e talvez, quem sabe.. percebam tanta "coincidência", e que somos a natureza, portanto seguimos as mesmas regras.

Talvez as pessoas estejam compreendendo um pouco que, de fato, são as pequenas alegrias que contam. E a soma de todo pouquinho do que é bom e positivo possa se chamar vida plena. Talvez...



terça-feira, 8 de março de 2022

A psicopatologização das emoções no divã

                                                                            Maria Helena

                       

Partindo de estudos do Módulo III do curso de Psicanálise Clínica e contrapontos de outros autores, a descrição dos fenômenos ganham vida própria, balizados em conhecimentos científicos.

Em tempos de pandemia até os preconceituosos de renderam e estão procurando “tratar” de suas “neuras”, pseudônimo utilizado para designar algo de que, ainda, não possui nenhum diagnóstico. Contudo, sabe que está se distanciando do que se conhece como saudável.

A personalidade de um adulto vai se constituindo, a partir de sua interação com um objeto presente ou não, ou seja, algo cultural, histórico. Portanto, desta relação intersubjetiva onde vários elementos são contextualizados o sujeito, percebendo o seu entorno, o “outro”, percebe-se como um em SI, o EU que não é mais uma extensão da mãe/pais/cuidador/a.

Para Freud, todo sujeito passa pelo desenvolvimento psicossocial e esse possui fases: oral, fase anal, fase fálica, período de latência, fase genital. Em cada fase, a libido obtém mais satisfação em uma zona erógena diferente e o conceito de sexualidade, para o autor, vai além de sua definição relativa ao sexo. As fases não são estanques e nem lineares variando entre sujeitos, pois dependem das experiências subjetivas de cada sujeito. Cada fase pode deixar marcas permanentes, denominadas de pontos de fixação, onde o curso “normal” pode ser alterado porque certos conflitos podem se instalar. Desse modo, são gerados “pontos” nodais “que vão se fixar em determinado estágio e que serão retomados quando um período de crise (representação emocional) aparecer ao longo da vida da pessoa” (MÓDULO III, 2020, p. 10).

A Psicanálise é um método investigativo, método terapêutico ou clínico é, ainda, uma forma nova de abordar o ser humano, a cultura e a sociedade. Diante disso, explorar esses campos, do humano vivendo em sociedade, fomenta a cultura e dela se alimenta, significa que quando um sujeito vai para o divã, ele vai acompanhado de muitos elementos.

Domingues et al (2014) trazem importantes reflexões acerca do contexto em que vivemos, são rotinas organizadas pela sociedade, preenchendo todos os horários dos sujeitos, sendo a hiperatividade uma forte característica da atualidade. Essa agitação advinda pelo excesso de informações e ações não permitem que o sujeito possa apreciar seus próprios sentimentos, experimentar cada diferente emoção de um jeito saudável e, sim, da forma criada e formatada pela sociedade. Deve passar pelos sentimentos de forma padrão, sendo meio que obrigado a responder de forma elegante, alegre, desconsiderando suas reais emoções. Isso fica evidenciado nos próprios velórios se comparados há anos atrás. O luto sofrido, atualmente, o enlutado é encaminhado aos consultórios psiquiátricos e psicológicos, como se não devesse passar pela dor da perda.

A pandemia está sendo um fator preponderante para aumentar o número de   estados depressivos. O vírus, talvez esteja liberando a angústia, tristeza, frustração que muitos vinham sentido de forma isolada e passou e ser percebida de maneira generalizada, de massa. Talvez haja uma patologização das emoções, uma banalização de quadros que, em princípio deveriam ser observados como adaptação a um novo paradigma, um estresse natural e saudável, para uma percepção de um mundo doente, devendo esse ser medicalizado, não havendo amigos ou familiares com escuta acolhedora, existem sim os ansiolíticos, entre outros psicotrópicos.

Para trazer dados mais fidedignos seria necessária uma pesquisa quantitativa, por ser mais convincente neste mundo globalizado. No entanto, quando na atualidade designada pela ‘academia’ contemporânea, são tantas as teorias.

Guareschi et al (2021) trazem reflexões sobre a própria forma de pesquisa na área da psicologia, pois ter como indicadores: crenças, valores, motivações, nunca foi e nem como tem que ser, mensurada. Se a palavra de ordem da vez é pós-verdade, como entender a comunicação como um indicador, sendo as máquinas que fazem as leituras da maioria do material postado na internet. Os sentimentos percebidos por meio de uma conversa, onde dois sujeitos interagem, exclamam, riem, possibilita uma leitura além do que aparenta, pois está carregado de emoção. Assim, fora de um consultório, em que há um trabalho legitimado na escuta e observação, o cotidiano dispõe de whatsApp, facebook, entre tantos outros para curtir, compartilhar e por aí vai, literalmente, se expandindo, como efeito cascata aquilo que, alguém ingenuamente ou não, postou.  A espera de um like gera ansiedade, talvez quem curtiu faça desta ação uma rotina em partilhar, curtir todas as postagens de seus “amigos”.

Os referendados autores seguem suas reflexões no sentido de que a psicologia, atualmente, conta com uma potente ferramenta em questão de pesquisas quantitativas, o enorme número de informações a que se tem acesso para poder triangular dados de todas as formas. Porém, difícil se aproximar de um perfil fidedigno do sujeito que está disponível para o mundo, literalmente.

Ao desenvolver os argumentos no sentido de diálogo entre os autores aqui explanados é possível verificar que, na atualidade, não é presumível ter uma verdade absoluta sem que seja contextualizada. A realidade não representa a todos, pois nem sempre o que aparenta é aquilo com o qual o sujeito se identifica.

 Para uma apresentação didática de fatos, teorias existem fases, períodos, contudo nunca podem ser estudados generalizando-os de forma estanque, ou com um ponto final.

Votando à visão psicanalítica de Freud, as diferentes formas de organização psíquica não são, em princípio, patológicas, essas possuem suas características, devendo ser estudadas cuidadosamente para não enquadrar o analisando em uma “patologia” e fragmentá-lo de si e da sociedade.

Diante ao exposto, a própria patologia cunhada nos manuais médicos, ao serem estudadas e comparadas ao paciente, para enquadrar neste ou naquele diagnóstico, deve estar muito claro para que não sejam simplesmente prescritos uma série de medicamentos, sem ao menos ouvir, sem estereótipos o que o paciente sente, sofre e percebe de si mesmo. A variação, as fronteiras de cada patologia devem ser ampliadas. O profissional deve estar sempre atento às pistas do seu paciente, deve também levar em consideração o contexto em que o sujeito vive, sua cultura em todas as suas nuances, fazer a leitura do não verbal, para poder errar menos em seu diagnóstico e prognóstico.

 

Referências bibliográficas:

MÓDULO III - curso de formação em psicanálise - psicanaliseclinica.com (2020)

DOMINGUES, Elzilaine; CAMARGO, Mendes T.; BARA, Viana O. Melancolia e depressão: um estudo psicanalítico. (2014) Disponível em: <SciELO - Brasil - Melancolia e depressão: um estudo psicanalítico melancolia e depressão: um estudo psicanalítico>. Acesso em: 15 de jul. 2021.

GUARESCHI, Pedrinho A.; AMON. Denise; GUERRA, André. E. Abrapso. Psicologia, comunicação e pós-verdade. Porto Alegre, 2019.

quarta-feira, 5 de janeiro de 2022

Análise de “Práticas e Procedimentos em Clínica Psicanalítica”

 

                                                               Maria Helena

“A psicoterapia é um valioso recurso para lidar com as dificuldades da existência em todas as formas que o sofrimento humano pode assumir [...].” (MÓDULO 09, 2020, P. 05) E isto não pode ser apenas uma frase bonita, que chamou a minha atenção. É profundamente uma percepção do que vem a ser os momentos que a psicoterapia pode favorecer de mais humano para uma pessoa que está com um sofrimento causado por suas emoções.

“A boa terapia se desenrola num enquadre clínico com um vínculo que favorece este processo. Aí está um dos segredos desta arte: criar um ambiente que permita a revelação dos mundos internos e favoreça o desenvolvimento do processo singular de cada um. ” (MÓDULO 09, 2020, P. 10). Percebe-se que não é qualquer profissional ou ambiente que conseguirá fazer com que um paciente, cliente, analisando, enfim uma pessoa se sinta tão à vontade, ao ponto de expressar sua mais profunda dor.

De acordo com o Módulo 09, a base de uma boa terapia está na relação terapêutica, quando se desenrola em uma harmonização cujo vínculo favorece o processo. Sendo um elemento fundamental, portanto, o ambiente pois deve possibilitar que o mundo interno do analisando consiga emergir, ainda beneficiando o desenvolvimento da dinâmica da singularidade individual. Nesse clima, é possível ao ser mais oculto e amedrontado se mostrar, ser ouvido, transformar-se.

Nesta acepção, Weffort (1995) afirma que só é possível olhar o outro e sua história se temos em nós uma abertura de aprendiz que estuda a própria história. Assim, a ação de olhar é um ato de estudar a si próprio, a realidade, à luz da teoria que inspira.

No sentido da atenção, a contribuição vem da filósofa Simone Weil que afirma ser esta a mais alta forma de generosidade. O método para compreender os fenômenos, portanto, seria olhá-los até que irrompa a luz, sem qualquer forma de interpretação e nem um apego. (BOSI, 2003).

Weffort (1995) assevera que nossa educação não permitiu olhar pensando o mundo, a realidade, nós mesmos e este olhar cristalizado nos estereótipos produziu em nós paralisia, fatalismo, cegueira, entre outras características onde supõe-se ver o que não é real, mas o que se deseja ver.

Em uma entrevista, ou sessão de terapia é necessário estar aberto ao que o outro traz de mais sagrado, a sua história. Assim, para Weffort (1995) a concentração do olhar inclui escuta de silêncios, inclusive os ruídos na comunicação, que podem ser inclusive do psicoterapeuta.

Pelos estudos, um momento fundamental da psicanálise é a entrevista, entendida como o estudo da alma do analisando, e, se difere muito do preenchimento da ficha de anamnese.

Assim, o espaço psicanalítico é o ambiente de ouvir, no entanto, vale pensar se sabemos de fato, escutar o outro na sua história.

No dizer de Weffort (1995) o ver e o escutar fazem parte do processo da construção do olhar. E frequentemente não ouvimos o que o outro nos diz e sim se escuta aquilo que se gostaria de ouvir, e se imagina aquilo que o outro estaria tentando comunicar, porque não se parte de sua fala, porém de uma fala interior. É muito sério isso de produzir um monólogo. Pois o di-álogo, são dois.

Outro item importante para este ambiente acolhedor da entrevista é o olhar, que para a supracitada autora, atualmente se possui um olhar estereotipado, parado, querendo ver só o que nos agrada, o que sabemos, assim reproduzindo um olhar de monólogo, um olhar e uma escuta dessintonizada, alienada da realidade do outro.

Ver e Ouvir demanda implicação, entrega ao outro. Estar aberto para vê-Io e/ou ouví-Io como é, no que diz, portanto, exige um sair de si para ver o outro e a realidade, segundo os pontos de vista e hipóteses do outro e não da sua.

Diante ao exposto, demanda ao psicanalista um estudo minucioso de si mesmo, se possui tais características, porque não é um exercício fácil. Principalmente depois de adulto, quando este especialista não conseguiu em seu processo de psicanálise, como analisado, ter percebido suas fragilidades de conviver em grupo, por arrogância ou autoritarismo, ou algum sentimento que o impeça de uma convivência harmoniosa.

O espaço em que se ocupa em uma sessão de psicanálise, não é apenas o físico, tempo, há emoções, sentimentos, então para buscar, conversar, tocar no outro, na sua ferida que faz parte da comunicação, por meio das associações que o analisando faz, assim importa que o psicoterapeuta reconheça o seu agir durante este rico espaço.

 

Referências bibliográficas:

BOSI, Ecléia. A atenção em Simone Weil  - Artigos originais  Psicol. USP – 2003. SciELO. Disponível em: https://doi.org/10.1590/S0103-65642003000100002 . Acesso 15/out./2021

WEFFORT, Madalena Freire. Observação, Registro, reflexão: Instrumentos Metodológicos I. São Paulo: Espaço Pedagógico. (1995)

MÓDULO 09. Clínica psicanalítica. Psicanálise clínica. (2020)

quinta-feira, 28 de outubro de 2021

Proposta pedagógica escolar – PPP: leis, normas e práticas

 

        Maria Helena

Passar por diversos espaços escolares nos proporciona experiências singulares e, quando estamos estudando a própria prática, podemos ter bons aprendizados. Trabalhei da educação infantil ao superior, em escolas de rede públicas e particulares, da periferia ao centro, assim pude aprender um pouco sobre o projeto pedagógico. Como assessora educacional em diferentes Redes tive o privilégio de estudar muito material que emergiram do chão da escola, como outros de puro carater técnico, cumprindo leis.

Todos os PPPs possuem o carater técnico e cumprem leis, mas isso não é a razão de ser deste movimento. Sua razão de existir é oferecer um rumo para a escola, em seus aspectos políticos, filosóficos para que o pedagógico possa se efetivar.

Percebo que os posts mais acessados neste Blog são sobre o PPP, portanto observo que, de fato, há um interesse em discuti-lo, compreendê-lo.

Nos 30 anos que observo o PPP, com esta denominação, isto antes da atual LDB, 9394/1996, a escrita do documento não modificou tanto assim, pelo menos em minha região (sul), porém minha compreensão modificou bastante, penso que devido a atitude de poder estar sempre estudando minha prática, percebendo as incoerências discurso-teoria-chão da escola.

Uma das inconsistências percebidas está justamente na base em termos normativos e legal. Muitos municípios, acabam atualizando o PPP da Rede e esquecem de atualizar uma normativa que é referente ao Sistema, o que implica tratar de escolas particulares, quando se menciona a educação infantil. Portanto, leis não atualizadas, divergindo de normas que são da alçada do CME, ainda não incluindo leis federais que incidem sobre a comunidade escolar, exemplo: ECA, Acessibilidade, bullying, entre outras, de acordo com a configuração da escola. Outro exemplo é uma escola que deve prestar contas ao CEE e ao CME.

Outra situação vulnerável à escola é quando esta possui uma prática totalmente divergente da apontada no PPP, em qualquer aspecto que esteja imerso no fazer pedagógico, porque a razão do existir de uma escola é o ensinar e, isto na atualidade, possui uma conotação muito diferente de 20 anos atrás, principalmente devido à BNCC.

Ao analisar Projetos e Regimentos percebo os mesmos divergindo dentro da mesma unidade escolar. Isso faz com que a escola se torne mais vulnerável em termos jurídicos.

Antes de atualizar qualquer PPP, é necessário a escola em um todo compreender o significado deste movimento, portanto é necessário revisar o que as pessoas sobem sobre ele. Para que serve o documento, o que este sintetiza e sistematiza. Reconhecer no PPP a síntese dos estudos, a sistematização necessária para a escola ter a sua prática e menos incertezas, reconhecendo que qualquer pessoa dentro da escola consegue falar sobre o mesmo. Sem dúvida, a partir de sua janela, se é pai, estudante, docente ou gestor.

Veja bem, uma ou outra situação inusitada não prevista no planejamento, normas, regras que são a alma e o corpo da proposta pedagógica é aceitável, pois a escola está viva. Agora, lamento informar, quando semanalmente ocorrem situações, as quais não encontram um amparo no PPP ou RI, é falta de conhecimento da importância dos movimentos de estudos, para chegarem a uma sistematização sólida do documento.

É preciso entender de planejamento estratégico, de teoria de aprendizagem, de linhas filosóficas, de leis e normativas. Necessita elaborar um cronograma e seguir com o mesmo. Não basta colocar os profissionais “discutindo” sobre o plano anterior, é mais que isso. Portanto, é impossível chamar de atualização do projeto, quando ou somente é elaborado pela gestão, ou tentar atualizar em uma semana de maneira contínua. Isso pode acorrer se for a atualização de um item fundamental, sendo uma solicitação do Conselho ao qual pertence, ou ainda avaliar somente as ações previstas para um ano. Porém, a denominação “atualizar”, depois de 4, 5 anos, demanda planejamento e muito estudo da equipe coordenadora do projeto.

Diante ao exposto, seria interessante e prático a escola verificar no sumário do documento anterior e elencar por prioriadde a ordem do estudo, exemplo: linha filosófica, teorias, diagnóstico físico, etc... levar para o grupo segurança, acreditando para que os "outros"também acreditem nas riquezas encontradas durante a reelaboração do PPP.

quarta-feira, 27 de outubro de 2021

Psicopatologias emocionais da/na condição docente no Brasil

                                                          Maria Helena

Para Dalgalarrondo (2008, p. 24) “os signos de maior interesse para a psicopatologia são os sinais comportamentais objetivos, verificáveis pela observação direta do paciente e os sintomas, isto é, vivências subjetivas relatadas pelo paciente”. Portanto, tão importante a comunicação entre analista e analisando, como a entrevista preliminar.

O módulo dedicado às psicopatologias, indica conceitos, características de doenças emocionais que aparecem frequentemente em muitos profissionais.  Infelizmente as estatísticas apontam números que crescem a cada ano

Para Passos (2019) a ansiedade, por exemplo, atinge mais de 260 milhões de pessoas no mundo. E no Brasil dados mostram que 86% sofrem com algum transtorno mental, como ansiedade e depressão.  Cerca de 32% dos trabalhadores brasileiros sofrem com os efeitos do estresse. Outros dados recentes mostram que 49% dos trabalhadores no Brasil já tiveram crises de ansiedade, enquanto 44% dizem ter sofrido com o esgotamento mental devido ao stress profissional.

Pesquisa realizada pela Confederação Nacional dos Trabalhadores em Educação (CNTE) entrevistaram no início de 2017. 762 profissionais de muitos estados, 71% ficaram afastados da sala de aula. O estresse (65,7%), seguido por depressão (53,7%), alergia a pó (47,2%), insônia (41,5%) e hipertensão arterial (41,3%). Pelo menos 531 casos de ansiedade. (ANASPS, 2017)

Outra pesquisa que traz quantidade equivalentes foi elaborada pela Nova Escola no ano de 2018, com cinco mil educadores. Identificando que 66% desses profissionais precisaram se afastar do trabalho. A ansiedade afeta 68% dos educadores; estresse e dores de cabeça (63%); insônia (39%); dores nos membros (38%) e alergias (38%). Além disso, 28% deles afirmaram que sofrem ou sofreram de depressão. 87% dos participantes acreditam que o seu problema é ocasionado ou intensificado pelo trabalho (TEIXEIRA, 2018)

Transitando no universo da educação há mais de 30 anos, é possível constar que muito dos dados utilizados nas referidas pesquisas, são de docentes os quais procuram ajuda profissional. Muitos, diante dos trâmites legais, de todo o cenário fragilizado da educação, acabam com automedicação, atestados médicos de poucos dias, insuficientes para fazer um tratamento eficiente para tais patologias.

Os sintomas normalmente atribuídos à depressão são: transtorno de humor, falta de esperança, desmotivação, insegurança, isolamento social e familiar, perda de interesse por atividades antes prazerosas, apatia, falta de apetite e de concentração, insônia, perda de memória. (MÓDULO 6, p. 36)

A ansiedade é associada a uma forma de angústia decorrente da antecipação de acontecimentos futuros, o que pode ser bom ou ruim. A ansiedade excessiva pode se transformar num distúrbio de ansiedade, ou seja, numa doença. No transtorno de ansiedade, as pessoas não têm tempo para o agora: elas sofrem por antecipação a uma situação. (MÓDULO 6, p. 63)

As atribuições de um educador são: planejamento, ministrar aulas, avaliar, participar de todos os eventos da escola. Fazendo uma análise dos dados com os conceitos das patologias com mais incidência nas pesquisas é possível imaginar uma pessoa que lida com adolescentes, crianças, com os colegas tendo todos os sintomas descritos. Indo além, muitas vezes sendo mal compreendido pela direção. Embora a ciência tenha avançado muito, as doenças denominadas emocionais ainda se confundem com preguiça, falta de iniciativa, entre outras avaliações.

A docência traz, em sua história, um percurso com uma grande fratura, assim como outras instituições da sociedade. A profissão do professor, como alguém respeitado pois ensinava, havia uma seleção para atuar na área, do início do século XX, para o final do mesmo século, a partir dos anos 1980, pela falta de compreensão das leis, entre outros elementos, fazendo com que a categoria ganhasse uma nova característica, profissionais mais engajados em políticas, devido ao momento em o Brasil passava. Cursos de graduação favorecendo a entrada, devido a migração para cursos com mais status, juntando a isso, estudantes na escola básica sendo obrigado a estudar sem o desejo. Famílias focadas em seu trabalho, deixando de acompanhar o desenvolvimento do filho na escola.  Mesmo nesse cenário, a relação de poder autoritária imperou, fazendo com que os docentes buscassem mais os direitos, esquecendo alguns deveres e se perderam diante da sociedade. Assim, a figura do professor se desgastou, o local destinado ao ensino passou a ter um papel social desconhecido para a categoria, o espaço do pensar, da ciência, tanto de formação docente quando das crianças e adolescentes passa a ser percebido como assistência social.

Diante ao exposto, o docente passa a ser pensado pelo outro, pelos doutores das diferentes áreas científicas ou até uma justaposição de saberes.  Meio paradoxo, pois seria um espaço de conhecimento, até favorecendo às relações interpessoais.  Talvez como se percebe nas midias sociais há uma estereótipo a ser compreendido, quem é o sujeito atrás das imagens, tentando ler o que está oculto, buscando atualizar-se sem saber direito em que.

Além de ao estar imerso em todas as relações que decorrem deste contexto, estar com um atestado psiquiátrico na mão é sinônimo de fraqueza, quando deveria ser de força, pois está buscando a cura para seu desconforto.

 Referências Bibliográficas:

 ANASPS. Cerca de 70% dos professores se afastam por problemas emocionais (2017). Disponível em: Cerca de 70% dos professores se afastam por problemas emocionais – Anasps. Acesso em:30/08/2021

DALGALARRONDO, Paulo. Psicopatologia e semiologia dos transtornos mentais. Porto Alegre. Artmed, 2008.

 MÓDULO 6. Curso de formação em psicanálise - psicanaliseclinica.com (2020)

PASSOS, Letícia. Pesquisa mostra que 86% dos brasileiros têm algum transtorno mental. REVISTA VEJA. (2019) Disponível em: Pesquisa mostra que 86% dos brasileiros têm algum transtorno mental | VEJA (abril.com.br). Acesso em:27/08/2021

TEIXEIRA, Larissa. Nova Escola. 2018. 66% dos professores já precisaram se afastar por problemas de saúde. Disponível em: 66% dos professores já precisaram se afastar por problemas de saúde (novaescola.org.br) Acesso em: 30/08/2021

segunda-feira, 18 de outubro de 2021

Matéria, Conteúdo, inter/transdisciplinaridade

                                                                   Maria Helena

 Costumo dizer que quanto menos a pessoa entende de um assunto, mais tem o que falar. É o meu caso. Desculpem colegas, talvez eu seja redundante e até prolixa.

A disciplinaridade, no fazer escolar, nos remete em “lembrar” dos fragmentos de caixinhas nos passadas por “pseudociências”. E assim, como o homem vai se desenvolvendo, ou não...procura aperfeiçoar sua visão de si próprio e do mundo, denominada esta reflexão de filosófica, pois busca constantemente uma verdade. Porém, para buscá-la necessita primeiramente saber o que se procura. Nesse enredo, as diferentes visões, em um reverso de procurar uma unidade, divergem de uma forma tão disciplinar, buscando a interdisciplinaridade ou até a transdisciplinaridade.

É muito interessante assistir tal discurso, onde por meio, nem mais de disciplina, nem de matéria, como denominávamos, tentar explicar a interdisciplinaridade ou transdisciplinaridade ao Outro. Por vezes, através de filmes, técnicas...se o exemplo ensina mais que as palavras, o que estamos fazendo?

Pensamos na formação de pessoas reflexivas, que consigam compreender, e, nesse processo, ir abstraindo, interpretando à luz de conhecimentos sócio históricos prévios, analisando aquilo que é uma novidade para ir incorporando ao seu repertório.

A nossa prática nos trai, entrega qual teoria seguimos. Desejamos contribuir na formação de sujeitos em seus múltiplos aspectos, portanto para tal precisaríamos reconhecer tais aspectos. Pensamos e falamos da necessidade de ver o coletivo, para além de um amontoado de sujeitos e aqui iniciam alguns paradoxos. O coletivo é feito por indivíduos, únicos, indivisíveis, com identidade própria, que o distingue dos demais. Se conseguimos percebê-lo assim, e respeitamos sua história individual, começamos a vê-lo de forma inter/transdisciplinar.

Essa premissa, altera a visão que a ciência pedagógica possui do seu planejamento. Ao iniciar determinado tema, perceber que cada sujeito faz uma representação individual, partindo de sua bagagem histórica, que as interações feitas ao longo de sua jornada tiveram interferência de seu aparato neurológico, o acesso ao objeto a ser apreendido, onde isso se encontra em sua escala de valores, enfim, respeitar em sua indivisibilidade. Contudo, para que não fique em uma visão individualista, há que percebê-lo com um SER de pertença, pois, se identifica com determinado grupo, isso lhe gera a tão necessária segurança.

Qual o conteúdo é necessário que o Outro, este sujeito com o qual eu educador/a me identifico, apreenda para desenvolver uma habilidade? Sim, me identifico, pois fazemos parte de um coletivo maior, a Humanidade. Não é disso que estamos falando, em contribuir na formação de seres humanos? Em nossa ingenuidade, e nas várias “ciências”, denominadas humanas, temos os vários conceitos para serem critérios e fundamentar as estratificações. Assim, o não pertencimento a um determinado grupo, faz com que nossa consciência esteja tranquila. Porém, quando vemos os espaços de ensino, como oportunidade de nos assumirmos, como diante de um espelho, a situação muda e muito.

Não estou dizendo que seja fácil fazer este exercício diário, o dever de casa. Não é complexo, é difícil porque assim fomos educados. E para quebrar com esta visão, devemos estar abertos, pois nosso primeiro sentimento é a negação, a resistência, que são mecanismos saudáveis.

Tudo isso para dizer que um projeto de formação que deseja abraçar de forma inter/transdisciplinar o SER, deve primeiro fazer a pergunta: estamos dispostos ao autoconhecimento individual e coletivo de nosso grupo, a partir dos múltiplos aspectos, os quais estudam a humanidade?

Não basta um planejamento à priori, estudando o significado de muti, inter trans, é mais além, é compreender que cada conteúdo não está isolado na sociedade, e ao “descer” pelo conteúdo, ao enraizar historicamente, perceber cada ciência com a sua contribuição, porém, a ciência também é criação humana, não é um ser.